Manifesto zumbi (republicando)

Republicando este post velho, que tem trechos interessantes para a próxima aula (sexta, dia 10)

Alguns trechos do manifesto zumbi, de Sarah Juliet Lauro e Karen Embry. Em boundary2.dukejournals.org/cgi/reprint/35/1/85.pdf

Our fundamental assertion is that there is an irreconcilable tension between global capitalism and the theoretical school of posthumanism. This is an essay full of zombies—the historical, folkloric zombie of Haitian origin, which reveals much about the subject position and its relationship to a Master/Slave dialectic; the living-dead zombie of contemporary film, who seems increasingly to be lurching off the screen and into our real world (as a metaphor, this zombie reveals much about the way we code inferior subjects as unworthy of life); and finally, we are putting forth a zombie that does not yet exist: a thought-experiment that exposes the limits of posthuman theory and shows that we can get posthuman only at the death of the subject. Unlike Donna Haraway’s “Cyborg Manifesto,” we do not propose that the position of the zombie is a liberating one—indeed, in its history, and in its metaphors, the zombie is most often a slave. However, our intention is to
illustrate that the zombie’s irreconcilable body (both living and dead) raises the insufficiency of the dialectical model (subject/object) and suggests, with its own negative dialectic, that the only way to truly get posthuman is to become antisubject.

(…)

During the summer of 2005, much media hype surrounded the
release of Land of the Dead, George Romero’s final installment of his zom-
bie series. In a television interview promoting this latest movie, Romero
was asked what he would do if zombies were to take over the planet. He
responded that he would go right out and get bitten: “That way I could live
forever,” he said. The irony is that while the statement prompts us to ask
what kind of life that would be, it reveals that our fascination with the zom-
bie is, in part, a celebration of its immortality and a recognition of ourselves
as enslaved to our bodies.

(…)

Quite simply, fear heightens our awareness of ourselves as individuals because
our individuality is endangered in life-threatening situations. Nowhere is
this drama more acutely embodied than in the model of the zombie attack:
for the zombie is an antisubject, and the zombie horde is a swarm where
no trace of the individual remains.13 Therefore, unlike the vampire, the zom-
bie poses a twofold terror: There is the primary fear of being devoured by
a zombie, a threat posed mainly to the physical body, and the secondary
fear that one will, in losing one’s consciousness, become a part of the mon-
strous horde.

The zombie shows us what we
are: irrevocably bound to our bodies and already married to the grave. But
the zombie also shows us what we are not: man, as we know him, as a
cognizant, living creature, does not outlive the death of his body. As such,
the zombie metaphor (like its mythological parent, the Haitian zombi ) is not
purely a slave but is also slave rebellion. While the human is incarcerated
in mortal flesh, the zombie presents a grotesque image that resists this
confinement—animating his body even beyond death. At the same time
that the zombie emphasizes human embodiment, he also defies the very
limits that he sets.

(Muito legal pensar a imortalidade e o rompimento da relação – irrevogável – com o corpo como quebra da condição humana. Dá para pensar o corpo redivivo do zumbi como o inverso simétrico da consciência/memória/mente armazenada em disco rígido como querem os pós-humanistas?)

What underlies this symbolic duality, however, is that
the zombie, neither mortal nor conscious, is a boundary figure. Its threat to
stable subject and object positions, through the simultaneous occupation of
a body that is both living and dead, creates a dilemma for power relations
and risks destroying social dynamics that have remained—although widely
questioned, critiqued, and debated—largely unchallenged in the current
economic superstructure.

We attempt to read the zombie as a more effective imagining of
posthumanism than the cyborg because of its indebtedness to narratives of
historical power and oppression, and we stress the zombie’s relevance as
a theoretical model that, like the cyborg, crashes borders. Simultaneously
living and dead, subject and object, slave and slave rebellion, the zombie
presents a posthuman specter informed by the (negative) dialectic of power
relations rather than gender.

(Contraponto com Haraway é muito bom, pois a ironia-alegoria do cyborg se perdeu, talvez dê para dizer que virou utopia)

 

Manuel Castells: Livres para criar (entrevista de 2005, no FSM)

Pediram-me essa entrevista com o Castells, que fiz lá em 2005. Só consegui recuperar pelo internet archive. Colo aqui pra que não se perca de vez.

 

Manuel Castells: Livres para criar
Editoria: Comunidade
22/Feb/2005 – 09:08

Por Rafael Evangelista (Entrevista Exclusiva) O sociólogo Manuel Castells defende a liberdade de compartilhar como caminho para a criação do novo e reflete sobre a natureza e o futuro do software livre

 

No final da década de 1990, Manuel Castells causou, senão uma pequena revolução, pelo menos uma grande agitação na sociologia mundial. Os três volumes de sua Era da Informação anunciavam novos tempos para o capitalismo mundial, uma sociedade globalizada, em rede, na qual a informação seria um dos principais elementos.

Presente no último Fórum Social Mundial, Castells foi quase ofuscado pela presença do ministro-celebridade Gilberto Gil. Mas quem manteve os ouvidos atentos pode ouvi-lo dizer que a informação, para ser distribuída de forma justa e não sirva apenas para reforçar os privilégios e as vantagens das corporações, precisa ser livre. Castells relacionou a internet e os software livres, afirmando que ela não teria alcançado seu desenvolvimento atual se não se baseasse em protocolos abertos e livres. Defendeu também que a lógica da liberdade dos software livres seja aplicada em outros setores.

E foi isso que Castells pode acompanhar em sua visita ao Laboratório de Conhecimentos Livres. O Laboratório foi um espaço de experimentação e divulgação de tecnologias e mídias que se baseiam – na idéia de conhecimento compartilhado. Grupos de todo o Brasil mostraram suas práticas inovadoras e convidaram os participantes do Fórum a conhecê-las. Foi na saída de Castells do Laboratório que Planeta Porto Alegre o entrevistou.

Queria uma opinião sua sobre o que viu no Laboratório de Conhecimentos Livres

Se alguém tem dúvida de que um outro mundo é possível teria que visitar esse Laboratório, neste Acampamento. Aqui se está experimentando, inovando, criando. Faz-se tudo entre amigos e pessoas que não se conhecem e passam a se conhecer nesta parte do mundo. Ninguém lhes dá ordens, ninguém os organiza e tudo funciona muito bem! Tenho certeza que o software e o multimídia que sai daqui é muito mais interessante e inovador do que o que é feito com os bilhões das corporações. Mas então nos perguntamos: o que fazem as corporações, já que elas não são estúpidas? E a resposta é que só o que elas desenvolvem sob o seu controle podem manter sob seu controle. Enquanto o que se faz aqui é livre para todo o mundo. Este Laboratório e o Acampamento simbolizam o que é o Fórum Social Mundial de verdade, ou seja, aqui se crê na capacidade de se criar e de se inventar novas regras de vida que sejam mais humanas.

Como alguém que já investigou as redes e criou o conceito de Era da Informação vê o crescimento do movimento software livre. E como você compara o movimento no Brasil e na Europa?

Acho que não conheço o movimento brasileiro o suficiente. Sei que é um movimento muito ativo, um dos maiores do mundo. Não conheço muito de suas inovações tecnológicas então não vejo esse como um bom critério para analisá-lo. Além disso, não podemos esperar que surja sempre um novo Linux ou um novo killer app (programa aplicativo de ponta). É muito mais importante que cada grupo desenvolva o que necessita e que tudo vá se conectando. Mais do que grandes inovações são mais importantes milhões de pequenas inovações interconectadas e, nesse sentido, o movimento me parece muito forte, muito vital.

Acho que a principal diferença no Brasil é o governo, e isso precisa ficar claro. Este governo está apoiando o software livre. Não completamente, nem em tudo que se poderia, mas está realmente fazendo. Outros governos também apóiam o software livre mas não o fazem como um princípio, em seus contratos, como uma operação em massa. Já este governo está realmente impulsionando o software livre e programas de inovação em software livre. Essa é a grande diferença. Podemos fazer tudo sem o governo, mas se ele ajuda – ou no mínimo não atrapalha – é algo bastante bom. O governo norte-americano tem atrapalhado, assim como o governo espanhol que, embora seja socialista e progressista, dá ouvido às companhias do cinema e da música, que têm um lobby muito forte.

E o que o governo espanhol tem feito?

Atualmente, há uma modificação da lei de regulação da internet em curso que, criada pelo governo socialista, é mais repressiva do que a do governo de extrema direita. Isso não é má intenção e sim ignorância. Fora dos setores especializados, acredita-se que as idéias de liberdade do software livre seja algo exótico, uma cultura hippie. O movimento software livre precisa se esforçar mais para fazer o mundo ver por que o software livre é importante. É preciso falar com a sociedade e explicar, mesmo aos que não gostam de computadores, como o software livre é fundamental.

Você comentou com estranhamento a falta de apoio do governo espanhol. Há uma afinidade entre esquerda e software livre?

Acho que o software livre é incompatível com corporações monopolistas, como a Microsoft. É também incompatível com governos repressivos que querem controlar a liberdade, sejam de direita ou de esquerda. Mas ele não é incompatível com a IBM, e ela não é um órgão revolucionario mundial. Nem é incompatível com governos democráticos, que querem desenvolver a criatividade dos jovens.

Mas eu não igualaria o software livre à esquerda. Ele é algo muito mais amplo. Seus valores são valores de transformação social e acho que mais próximo do anarquismo.

As idéias que estão por trás do software livre acho que são anti-autoritárias e de liberdade. Para mim, essas idéias são revolucionárias. Mas cabe uma diferenciação da expressão política organizada da esquerda. O movimento software livre é mais amplo do que o movimento anti-capitalista e pode encontrar aliados no capitalismo. De comum, há as idéias de liberdade e eles estão dispostos a aceitá-la. Isso é muito revolucionário pois, no fundo, os grandes poderes mundiais não estão dispostos a aceitar a liberdade.

Essa aliança, então, pode ter um prazo de validade?

Eu diria que é uma aliança com o capitalismo inteligente e com os governos que aceitam a liberdade e a democracia na sociedade. Essa aliança pode gerar ideias de liberdade em todo o conjunto da sociedade. É o que descobriremos no futuro.

Curso de 2013: ciborgues e zumbis (versão com cronograma para os 2 primeiros meses)

JC 003 – Tópicos Atuais em Ciência e Cultura  (2013)
Sextas, das 14h às 18h (1o semestre, 2013)

Zumbis, ciborgues, cibernética

O curso pretende trazer para a discussão dois personagens em evidência na literatura de ficção científica e discutí-los à luz de bibliografia que pensa questões como transhumanismo, natureza e cultura, hibridismo, cibernética e trabalho.

O desenvolvimento científico e a atual configuração do capitalismo despertam temores e esperanças que por diversas vezes são refletidos e elaborados em obras da ficção popular. Ciborgues e zumbis são figuras frequentes hoje em filmes e livros de ficção científica e terror. Despertam medo e fascínio no público e ganham vida for a das telas. Lidam com ideias como monstruosidade, coletivismo, sobrevivência, evolução, inteligência e consciência.

Para realizar os trabalhos do curso iremos ler, assistir e debater as seguintes obras abaixo, entre outras (a lista é parcial, novos itens serão adicionados).

Muitas das obras citadas são recomendações para serem vistas extra classe.

O curso exige boa compreensão do inglês.

—-

Cronograma para março e abril

01/03 – Apresentação do programa.
Noite dos Mortos-Vivos http://www.imdb.com/title/tt0063350/ (George Romero)

08/03 – The zombie manifesto : the Marxist revolutions in George A. Romero’s Land of the dead. http://t.co/HHH2Be9L
Dawn of the Dead (Romero) http://www.imdb.com/title/tt0077402/?ref_=fn_al_tt_1

15/03 – Manifesto Comunista http://www.pcdob.org.br/documento.php?id_documento_arquivo=181
Land of the Dead (Romero) http://www.imdb.com/title/tt0418819/?ref_=sr_2

22/03 – Wolf, Eric. “Contested concepts” in Envisioning Power. http://books.google.com.br/books?id=3iVX-Jp129sC&printsec=frontcover&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false
Terminator Salvation http://www.imdb.com/title/tt0438488/?ref_=sr_1

05/04 -Philipp Breton: “Norbert Wiener e a emergência de uma nova utopia” “A segunda guerra dos trinta anos” e “A cibernética, ou a emergência da ideia moderna de comunicação”

12/04 – Technical Mentality – Gilbert Simondon

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_simondon2.pdf

“TECHNICAL MENTALITY” REVISITED: BRIAN MASSUMI ON GILBERT SIMONDON
With Arne De Boever, Alex Murray and Jon Roffe

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_massumi.pdf

Invasion of the body snatchers

http://www.imdb.com/title/tt0049366/?ref_=fn_al_tt_4

26/04 – Manifesto ciborgue – Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX
Donna J. Haraway
Sleep Dealer (2008)

http://www.imdb.com/title/tt0804529/?ref_=sr_1

03/05 – Haraway, Donna. Companion Species Manifesto http://www.spurse.org/wiki/images/1/14/Haraway,_Companion_Species_Manifesto.pdf
Alien (1979)

10/05 – A Zombie Manifesto: The Nonhuman Condition in the Era of Advanced Capitalism
Sarah Juliet Lauro and Karen Embry

http://boundary2.dukejournals.org/content/35/1/85.full.pdf+html

American Zombie (2007) http://www.imdb.com/title/tt0765430/

Livros e artigos para maio e junho:

Network culture: politics for the information age
Tiziana Terranova

http://compthink.files.wordpress.com/2011/04/terranova-network-culture.pdf

A Utopia da Comunicação
Philippe Breton

Singularidade, transhumanismo e a ideologia da Califórnia
Rafael Evangelista

http://www.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=837&Itemid=353

Transcendent Man (filme)
Barry Ptolemy

All watched over by machines of loving grace (partes 1, 2 e 3)
Adam Curtis

——

When We Have Never Been Human, What Is to Be Done?
Interview with Donna Haraway

http://tcs.sagepub.com/content/23/7-8/135.abstract

Manifesto Ciborgue – Donna Haraway

http://deriva.wikispaces.com/Manifesto+Ciborgue

Estamos nos tornando ciborgues?

http://nyti.ms/V8GYBy

Robopocalypse
Daniel H Wilson

Technical Mentality – Gilbert Simondon

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_simondon2.pdf

“TECHNICAL MENTALITY” REVISITED: BRIAN MASSUMI ON GILBERT SIMONDON
With Arne De Boever, Alex Murray and Jon Roffe

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_massumi.pdf

A Zombie Manifesto: The Nonhuman Condition in the Era of Advanced Capitalism
Sarah Juliet Lauro and Karen Embry

http://boundary2.dukejournals.org/content/35/1/85.full.pdf+html

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)
Despertar dos Mortos (1978)
O Dia dos Mortos (1985)
G. Romero (filmes)

Repo Men (2010)
Miguel Sapochnik

Do Androids Dream of Electric Sheep?
Philip K. Dick

The zombie manifesto : the Marxist revolutions in George A. Romero’s Land of the dead. http://t.co/HHH2Be9L

Metropolis

*Body snatchers? – O dia que a terra parou? (aliens, robôs; aliens que são robôs)

Terminator Salvation (2009) – Eric Wolf (iluminismo, contra-iluminismo)

Biometrics, and the body as information:
normative issues of the socio-technical coding of the body

http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.200.9254&rep=rep1&type=pdf

Sobre animais e humanos

Curtis defende, aqui http://www.bbc.co.uk/blogs/blogadamcurtis/posts/HEAVY-PETTING, a tese de que os programas de TV sobre animais de estimação na verdade falam (ou falam também, inerentemente) sobre relações humanas, de grupos sociais.

Animals have been a central part of television from the very beginning. But over that time the way animals are portrayed on TV has varied enormously – not just in the way they are filmed, but in the stories they are used to tell the viewers.

And the truth is that the animal programmes are far more about us than they are about the animals. They are really about how we see ourselves. I have always been convinced that animal programmes are one of the most powerful ideological expressions of our time – telling stories that both express and reinforce how we understand our relationship to each other socially and politically in powerfully emotional ways.

Do mesmo modo como ele pensa os programas sobre pets, talvez valha afirmar como programas que falam (ou ficcionam) sobre seres de outra “espécie” também falem sobre as mesmas relações sociais, de classes, de poder, de propriedade. Não porque queiram necessariamente fazer isso, mas porque manifestam um olhar, uma estrutura imaginada pelos seus autores.

Battlestar Galactica, Walking Dead (e zumbis em geral)

Algumas anotações comparativas entre Battlestar Galactica e a estrutura geral das histórias contemporâneas sobre zumbis (principalmente WD). Feitas na metade da 2a temporada de BG.

- O cenário geral da história parece estar seguindo por vários pontos das tramas com zumbis: confinamento dos humanos, conflitos e mortes caminhando progressivamente para acontecerem derivadas da brigas entre humanos e não dos não-humanos, descoberta de novos personagens que marcam que a resistência (e os sobreviventes) são mais e maiores do que se esperava.

- A confusão entre o que é e não é humano vai se acirrando também. O racionalismo é tido como uma característica das máquinas, o que também aproxima certos personagens delas. Já algumas máquinas, “emulando” emoções, vão se humanizando na história. Outro componente importante é a religiosidade, explorada de maneira dúbia, ora com escrituras que parecem estar sendo manipuladas pelas máquinas, ora como fonte de humanização a ser usada pelas próprias máquinas em seu aperfeiçoamento e humanização. Já em WD, por outro lado, o que vemos são humanos sendo progressivamente desumanizados por uma brutalidade animal e instintiva (surgem progressivamente assassinos e canibais que, para sobreviverem, distanciam-se pouco dos zumbis). Também o corpo, cada vez mais mutilado, vai se parecendo com o de um zumbi.

- Ainda sobre emoções, o amor vai se tornando importante em BG como própria fonte de sobrevivência. Ele é anunciado como chave para garantir uma procriação biológica dos cylons humanizados. É um viés que ainda está sendo explorado na 2a temporada, vamos ver para onde vai caminhar. Ao mesmo tempo, a sobrevivência dos indivíduos cylon de modelo humano é quase automaticamente garantida pelo upload da consciência momentos antes da morte. Esse upload acontece só nesse momento? Ou significa um monitoramento constante por alguma central? A história é cheia de buracos de roteiro, este pode ser um deles ou algo que vá ser explorado posteriormente.

- Talvez dê para se estabelecer algum tipo de linha que leve do mais racional/matemático/maquínico ao mais instintivo/animalizado, sendo importante a questão da hibridação que vai surgindo pelo caminho como fonte de “resolução” dos conflitos. Uma ponta é puro código (“software não é emoção”, ouvimos direto em BG) a outra é puro corpo: máquina/cylon (central?) – cylon/humanizado – humanos calculistas/intelectuais – humanos guerreiros/apaixonados – humanos assassinos/brutalizados – zumbis (dá para incluir os sentinelas cylon que são puro corpo aqui? pode fechar o ciclo).

- A questão da hibridação máquina – humano – zumbi parece importante para garantir a sobrevivência de alguns personagens ou dos conjuntos das populações. Em WD, é só abdicando um pouco da humanidade (tornando-se um pouco zumbi na crueldade e no corpo) é que se sobrevive. Em BG, só se sobrevive sendo um pouco frio e aceitando-se perdas humanas controladas. Como a história ainda não se fechou pra mim (2a temporada), aparece como sugestão de outra chave de sobrevivência a hibridação concreta na figura dos filhos de cylons e humanos. A ver.

- Atualização dia 23/2. O episódio18 da segunda temporada (BG) é particularmente interessante. Mostra dois cylons reencarnados, em Caprica, mas humanizados por um tipo de hibridação dada pela história e por relacionamentos. É algum tipo inicial de diferenciação entre as máquinas, dado pela história de relações com o outro, com os humanos (ou com outras etnias/culturas?). Elas auxiliam no escape de um humano dedicado a ações terroristas (o ataque ao café ecoa ação palestina em Israel, há inclusive menção a ocupação). Parece que o download/reencarnação é um processo dado apenas pela morte, não um processo de transmissão contínua de informação a uma inteligência coletiva cylon. É obviamente uma menção a algum tipo de ida da alma/código/memória ao céu. Uma das cylons (a #6) a cada episódio se torna mais “religiosa”, desenvolvendo essa religião monoteista em oposição ao politeísmo dos humanos. Está se falando sobre o quê? Sobre algum tipo de evolução cultural ao monoteísmo? Há alguma conexão com a religião tida como mais bárbara dos palestinos? (esse ponto parece nebuloso e enganador demais)

Curso de 2013: ciborgues e zumbis (versão 1.09)

JC 003 – Tópicos Atuais em Ciência e Cultura  (2013)
Sextas, das 14h às 18h (1o semestre, 2013)

Zumbis, ciborgues, cibernética

O curso pretende trazer para a discussão dois personagens em evidência na literatura de ficção científica e discutí-los à luz de bibliografia que pensa questões como transhumanismo, natureza e cultura, hibridismo, cibernética e trabalho.

O desenvolvimento científico e a atual configuração do capitalismo despertam temores e esperanças que por diversas vezes são refletidos e elaborados em obras da ficção popular. Ciborgues e zumbis são figuras frequentes hoje em filmes e livros de ficção científica e terror. Despertam medo e fascínio no público e ganham vida for a das telas. Lidam com ideias como monstruosidade, coletivismo, sobrevivência, evolução, inteligência e consciência.

Para realizar os trabalhos do curso iremos ler, assistir e debater as seguintes obras abaixo, entre outras (a lista é parcial, novos itens serão adicionados).

Muitas das obras citadas são recomendações para serem vistas extra classe.

O curso exige boa compreensão do inglês.

When We Have Never Been Human, What Is to Be Done?
Interview with Donna Haraway

http://tcs.sagepub.com/content/23/7-8/135.abstract

Manifesto Ciborgue – Donna Haraway

http://deriva.wikispaces.com/Manifesto+Ciborgue

Estamos nos tornando ciborgues?

http://nyti.ms/V8GYBy

Robopocalypse
Daniel H Wilson

Technical Mentality – Gilbert Simondon

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_simondon2.pdf

“TECHNICAL MENTALITY” REVISITED: BRIAN MASSUMI ON GILBERT SIMONDON
With Arne De Boever, Alex Murray and Jon Roffe

http://www.parrhesiajournal.org/parrhesia07/parrhesia07_massumi.pdf

A Zombie Manifesto: The Nonhuman Condition in the Era of Advanced Capitalism
Sarah Juliet Lauro and Karen Embry

http://boundary2.dukejournals.org/content/35/1/85.full.pdf+html

Network culture: politics for the information age
Tiziana Terranova

http://compthink.files.wordpress.com/2011/04/terranova-network-culture.pdf

A Utopia da Comunicação
Philippe Breton

Singularidade, transhumanismo e a ideologia da Califórnia
Rafael Evangelista

http://www.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=837&Itemid=353

Transcendent Man (filme)
Barry Ptolemy

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)
Despertar dos Mortos (1978)
O Dia dos Mortos (1985)
G. Romero (filmes)

Repo Men (2010)
Miguel Sapochnik

Do Androids Dream of Electric Sheep?
Philip K. Dick

The zombie manifesto : the Marxist revolutions in George A. Romero’s Land of the dead. http://t.co/HHH2Be9L

All watched over by machines of loving grace (partes 1, 2 e 3)
Adam Curtis

Metropolis

*Body snatchers? – O dia que a terra parou? (aliens, robôs; aliens que são robôs)

Terminator Salvation (2009) – Eric Wolf (iluminismo, contra-iluminismo)

Biometrics, and the body as information:
normative issues of the socio-technical coding of the body

http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.200.9254&rep=rep1&type=pdf

Da Tiziana Terranova, no network culture, para usar em algum momento para se falar em jornalismo científico ou pós-jornalismo

This technical (rather than simply technological) conception of
communication is what for us opposes, for example, the ethics of modern professionals of communication (such as journalists) to today’s communication managers (PR agents, advertisers, perception managers, information strategists, directors of communication). While journalists who subscribe to a professional ethics rooted in a liberal modernity, for example, would argue that information must be assessed in terms of its accuracy (or truth value) and relevance (meaningfulness), communication managers seem to have another type of grasp of the informational dimension of contemporary culture – which they reduce to a Manichean battle between signal and noise. The latter, in fact, understand the power of a communication act as determined by the overall dynamics of the informational milieu, where what counts is the preservation of the message/signal through all the different permutations and possible corruptions which such a message/signal is liable to undergo. This is why, for example, this social management of communication favours the short slogan or even the iconic power of the logo. The first condition of a successful communication becomes that of reducing all meaning to information – that is to a signal that can be successfully replicated across a varied communication milieu with minimum alterations. Whether it is about the Nike swoosh or war propaganda, what matters is the endurance of the information to be communicated, its power to survive as information all possible corruption by noise.

Transparência e aprendendo a abraçar

Virei fã de Adam Curtis depois de assistir ao documentário de três partes All watched over by machines of loving grace. Preparava um material sobre um subgrupo transhumanista chamado Singularidade e estava justamente tentando entendê-los ligados à ideologia da Califórnia – como descrita por Richard Barbrook -, ao individualismo, ao neoliberalismo e a Ayn Rand. Vale do Silício, utopia tecnológica e poder. Pois que em All watched over… Curtis fez o mesmo e foi mais além, complementando a análise com uma história da cibernética e das ideias de estabilidade e ecossitema do movimento ambiental e da contracultura. E fez isso em vídeos politicamente instigantes, irônicos e com uma trilha sonora matadora.

Curtis trabalha para a BBC e dela usa seu imenso acervo de vídeos. No site da emissora britânica mantém um blog no mesmo estilo de seus filmes, procurando pensar nas relações entre poder, cultura, imagens, ficções e mídia. Quase um rascunho para os próximos documentários.

Um dos posts talvez possa ser conectado com a cibernética e nossas esperanças atuais na transparência.

O post leva o subtítulo Aprendendo a abraçar. E defende a ideia de que a demonstração de pública de sentimentos é algo aceito e valorizado apenas recentemente na história, em um processo que tem a mídia como um dos principais “educadores”. O choro, o abraço, a afetividade passam a ser tomados como sinônimo de verdade, de real exposição de um interior. Expor esse interior, mudar internamente, seria o primeiro passo para uma mudança externa.

O post começa com o video de uma atriz britânica em um programa do tipo “Está é sua vida”, nos anos 50. Ao ver as imagens de um colega recentemente morto ela começa a chorar. chora contidamente, pois ainda não seria socialmente aceito expor sentimentos em público. A câmera foge da atriz, que tenta se conter de toda forma. Percebe-se o constrangimento no estúdio. No dia seguinte, a reprecussão nos jornais é péssima, o público se choca com tanta exposição de intimidade.

Em seguida, o vídeo de um trabalhador inglês comum dos anos 70, um escriturário de classe baixa. Ele fala sobre sua vida e afirma sua infelicidade de maneira chocantemente fria. Não chora, não reclama, aceita a vida medíocre – casado, mas sem amor; num trabalho que não o satisfaz -, a falta de ambição, a inadequação, a solidão. Também não ri, não se trata de encarar as adversidades com alegria. É melancólico.

Então Curtis nos leva a perceber a virada. Num acampamento americano com cara de contracultura dos 60-70, mostra o trabalho de terapeutas que defendem justamente que, para uma mudança no mundo, no exterior, é preciso uma mudança interior, de contato profundo com os sentimentos. Em sessões de abraços coletivos, gritos guturais, as pessoas são ensinadas a exporem suas entranhas para assim conhecerem-se melhor. Ensinadas que essa franqueza é garantia de melhor comunicação e, assim, de melhor entendimento mútuo.

Mas há um porém. E se as pessoas não estiverem necessariamente colocando pra fora o que há dentro delas mas, ao invés disso, mesmo que inconscientemente, estiverem apenas agindo emocionalmente como se passou a esperar delas? E se houver fingimento?

Curtis vai explorando esse tipo de tensão. E afirma que agir emocionalmente, em especial em frente das câmeras, passou a ser algo incentivado pelos programas de tevê. A barreira do comedimento civilizado dos anos 50 foi vencida pelas lições dos psicólogos. A frieza nos modos tornou-se sinônimo de artificialidade e não de comportamento social mais aceito. Mesmo que essa emoção seja algo aprendido e incorporado inconscientemente (ou até mesmo racionalmente utilizado quando se percebe que as demonstrações emocionais são esperadas), ela teria passado a significar a verdade, pois aparentemente seria um romper de comportas emocionais incontroláveis.

Aqui a ponte a se fazer. Vejamos o que Philippe Breton nos fala sobre o homo communicans:

“O projeto utópico que se articula em torno da comunicação é ambicioso. Desenvolve-se em três níveis: uma sociedade ideal, uma outra definição antropológica do homem e uma promoção da comunicação como valor. Esses três níveis se concentram em torno do tema do homem novo, que chamaremos de Homo communicans.

Segundo Wiener, esse homem novo corresponde a nada menos do que a tentativa de recolher, com materiais marginais, os fragmentos que uma civilização derrotada havia espalhado em um grande maelström entrópico. O Homo communicans é um ser sem interior e sem corpo, que vive em uma sociedade sem segredo; um ser totalmente voltado para o social, que só existe através da troca e da informação, em uma sociedade tornada transparente graças às novas “máquinas de comunicação”. Essas qualidades de homem da comunicação, que contribuem para fomentar o ideal do homem moderno, surgem como alternativas à degradação do humano produzida pela tormenta do século XX.”

O que é o homem em contato direto com seus sentimentos senão o homem totalmente transparente? Ele está “voltado para o social” também porque está, como homem da cibernética, oferecendo um feedback constante para os outros, para o grupo, para o sistema. Ao se abrir, ao se comunicar profundamente, o mais sem mediação possível, tornaria possível a estabilidade no social (ou, em menor escala, numa relação em um casal ou em um grupo)

Há mais a se explorar aí, porque essa transparência tem algo de iluminista e, ao mesmo tempo, contra-iluminista. Iluminista pois significa, de alguma forma, retirar do homem o mascaramento do ensinado (em analogia à religião, que obscurece o homem). Aqui a natureza é entendida como a fonte da verdade, como lugar no qual se buscar a raiz, o dado bruto sem o filtro da elaboração da emoção. Mas também é contra-iluminista porque nega razão ao sujeito, rejeita a elaboração que ele mesmo faz do que sente como algo impuro, como barreira à comunicação mais direta.

Por que a transparência, hoje, ganhou esse status de ritual de purificação, de pré-requisito necesário para a demonstração de incorruptibilidade ou condição de verificação sobre a conduta. Bancos vendem ações de empresas que rotula como éticas pois essas fazem seu processo de accountability, sua abertura de contas. O primeiro passo para um governo se mostrar limpo e fazer suas ações de open data. Não que essas ações não sejam positivas, mas esse desvestir é significado por si só como sinal de honestidade. Como se não houvessem Enrons a maquiar números.

Transparência e o choro público – um rascunho

A examinar a possibilidade de escrever alguma coisa cruzando isso aqui do P Breton:

“O Homo communicans é um ser sem interior e sem corpo, que vive em uma sociedade sem segredo; um ser totalmente voltado para o social, que só existe através da troca e da informação, em uma sociedade tornada transparente graças às novas “máquinas de comunicação”. Essas qualidades de homem da comunicação, que contribuem para fomentar o ideal do homem moderno, surgem como alternativas à degradação do humano produzida pela tormenta do século XX.

(…)

Entrementes a nova utopia fornece uma metáfora alternativa ao “homem dirigido desde o interior”: “O homem novo”, o homem moderno, é, antes de tudo, um “ser comunicativo”. Seu interior é totalmente exterior. As mensagens que ele recebe não lhe chegam desde uma interioridade mítica mas, ao contrário, de seu “ambiente”. Ele não age, reage, e isso não por meio de uma ação: ele “reage por reação” (é assim que Gregory Bateson define o laço social).

Julio Verne, um dos anunciadores da modernidade, inaugurara por acaso a desestabilização dessa metáfora em uma obra impressionante para a imaginação do século XIX, Viagem ao centro da Terra. Lembremo-nos de que, nessa ficção, o interior do planeta Terra, local ao mesmo tempo totalmente privado e não desprovido de influência sobre a superfície das coisas, entrega seu mistério diante do avanço de uma expedição que, devido ao caráter científico de suas motivações, dispensa qualquer referência em relação a valores e à “vida interior”. O auge do relato ocorre quando nossos exploradores descobrem que o interior é como o exterior. No mundo dos subterrâneos mais profundos que conduzem ao centro da Terra, não se descobre, enfim, mais que lagos, tempestades, animais, em suma : todos os ingredientes da humanidade, ainda que de uma forma um pouco mais arcaica. Perdendo o seu mistério, o interior é “exteriorizado” ´. A partir de então, constrói-se um novo jogo metafórico em torno de uma rede de significações onde a imagem, a forma e a aparência serão cada vez mais valorizados e, sobretudo, onde são os mesmos termos que servirão para descrever o que ocorrer dentro do homem e em seus comportamentos exteriores.”

Juntando essa concepção com o post do A. Curtis

http://www.bbc.co.uk/blogs/adamcurtis/2011/10/the_curse_of_tina_part_two.html

E, do From…to Cyberculture, do Fred Turner, o que fala sobre as políticas hippie/neocomunalistas (que, de alguma forma, surgem no post do Curtis.

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