35a Anpocs

Primeira versão do texto a ser apresentado no GT01 da 35a Anpocs, ciberpolítica cibercultura ciberativismo.

É primeira versão mesmo, então deve ter erros (de escrita, inclusive) e contém omissões.

 

 

35º Encontro Anual da Anpocs;

GT-01 Ciberpolítica, ciberativismo,
cibercultura

Singularidade, transhumanismo e a
ideologia da Califórnia

Rafael Evangelista (Labjor/Unicamp)

Agosto, 2011

É difícil enumerar e delimitar
concretamente todos os grupos transhumanistas. Como ilustração, um
rápido exame do verbete da Wikipédia
1

aponta oito – abolitionism,
democratica transhumanismo, extropianism, immortalism, libertarian
transhumanism, postgenderism, singularitarianism
e
technogaianism
–, o que
mostra a diversidade de correntes e a intensidade das disputas
políticas entre os grupos apoiadores dessa uma mesma ideia geral.
Esta, por sua vez, seria a perspectiva de que as tecnologias e a
ciência de uma maneira geral fizeram progressos consideráveis que
permitiriam ao homem, em breve, alterar seu corpo de forma
significativa e com alta intensidade, a ponto de abandonar sua
condição humana. O prefixo trans se referiria a um momento
transitório, sendo que no horizonte estaria o poshumano. Langdon
Winner (2002), ao descrever os advogados do poshumanismo, os localiza
principalmente nos laboratórios de pesquisa das corporações e das
universidades que investigam inteligência artificial, biotecnologia,
robótica e a simbiose homem/máquina. Seu discurso capturaria
atenção especial da mídia, os transformando nos principais
publicistas de seus campos:

Predictions that humanity will soon
yield to successor species are especially popular among those who
spend a good amount of time in corporate and university research
laboratories where movement on the cutting edge is the key to
success. While most scientists and technologists at work in
biotechnology, artificial intelligence, robotics, man/machine
symbiosis, and similar fields are content with modest descriptions
of their work, each of these fields has recently spawned
self-proclaimed futurist visionaries touting far more exotic accounts
of what is at stake—vast, world-altering changes that loom just
ahead. Colorful enough to be attractive to the mass media, champions
of posthumanism have emerged as leading publicists for their
scientific fields, appearing on best seller lists, as well as
television and radio talk shows, to herald an era of astonishing
transformations.” (Winner, 2002)

Nesse sentido, um desses grupos tem
recebido notável espaço na mídia, com sua personalidade mais
proeminente quase ganhando o status de celebridade, tornando-se
figura fácil em
talk shows

e capas de revistas e ganhando em autoridade quando o assunto é o
futuro da ciência e da tecnologia. O inventor e futurista
estadunidense Ray Kurzweil parece ter tomado de assalto a mídia dos
EUA. Capa da revista Time2
– e poucos meses depois de sua cópia nacional, a revista
Veja3
– personagem de um documentário –
Transcendent
Man
, sendo ele próprio o
homem transcendente – Kurzweil levou a ideia da singularidade aos
ouvidos de quem desconhece termo transhumanismo. Desde o lançamento
do filme, dirigido por um cineasta independente mas simpático ao
singularismo, Kurzweil, possível líder do movimento da
singularidade, tem viajado por todo os Estados Unidos junto com o
diretor, em um esforço de promoção da película. Algumas dessas
exibições, nas quais aconteceram sessões de perguntas e respostas
com o cineasta e o personagem, foram patrocinadas pela gigante da
tecnologia Google
4.
O filme também foi exibido em uma sessão nas dependências da
empresa. A Google, em especial na figura de um dos seus fundadores,
Larry Page, é uma das empresas entusiastas da singularidade e
parceira de Kurzweil e do empreendedor e engenheiro aeroespacial
Peter H. Diamandis na Universidade da Singularidade. Fundada em 2008
e operando nas instalações da Nasa, no Vale do Silício,
Califórnia, a instituição oferece curtos cursos multidisciplinares
(um de nove dias e outro de dez semanas
5)
que buscam “reunir, educar e inspirar um grupo de líderes que se
esforçam para entender e facilitar o desenvolvimento de tecnologias
que avançam exponencialmente, a fim de
resolver
grandes desafios da humanidade”
6.
Além da Nasa e Google, entre outros financiadores da Universidade da
Singularidade estão outras empresas do Vale do Silício como a
Autodesk e a LinkedIN e empresas de tecnologia como a Nokia. Entre os
professores/palestrantes estão Kurzweil e outros profissionais
ligados à tecnologias de rede e entusiastas da internet, como Vint
Cerf e Robert Metcalfe. Na universidade e nos encontros singularistas
misturam-se personagens de renomadas instituições acadêmicas como
Stanford e o MIT, capitalistas especializados em investimentos de
alto risco (os
venture
capitalists
) e executivos
de alta patente das maiores empresas de tecnologia da atualidade.

O interesse pelo transhumanismo em
sua vertente singularista vem dessa interconexão que parece
produtiva – no sentido de entroncamento em que se articulam ideias
e investimentos no sentido de se produzir um determinado futuro. As
falas de Kurzweil tem essa qualidade, misturam diagnóstico, visão
de um futuro que se apresenta como inexorável, com arregimentação
de forças materialmente produtivas e produtoras de conhecimento em
direção a uma transformação do humano com impacto consequente em
toda sociedade. Não há escape
da singularidade, ela é o próximo passo evolutivo da humanidade;
mas, ao mesmo tempo, é preciso preparar-se para a singularidade e,
assim, prepará-la.

A proposta aqui é apresentar
indícios preliminares, dado o estágio atual da pesquisa e o espaço
aqui disponível, sobre o conjunto de ideias em torno da
singularidade e procurar pensá-la como ideologia nos termos de Eric
Wolf (1999). Este distingue ideologia de ideias, apontando a primeira
como algo a ser usado de maneira mais restrita, como algo que “sugere
esquemas unificados [de ideias] ou configurações desenvolvidas para
sublinhar ou manifestar poder”. Ideias funcionariam como entreposto
seletivo entre o homem, enquanto organismo, e o ambiente em que
circula. Elas falam sobre algo, e servem para aproximar e/ou separar
as pessoas. “Ambos, cooperação e conflito, invocam e envolvem
jogos de poder nas relações humanas e nestes ideias são emblemas e
instrumentos, numa interdependência em disputa e sempre em mudança”.
(Wolf, 4: 1999).

A etnografia das ideias promovida
Wolf chama a atenção para alguns aspectos aos quais parece ser o
caso de atentar aqui, como ligação entre ideias, ideologia e poder
e a construção de esquemas, de arregimentações de forças
produtivas em determinadas direções. Falando sobre o poder
estrutural, que assinala como típico da sociedade capitalista, Wolf
aponta que este, “em qualquer sociedade, implica em uma ideologia
que posiciona diferenças entre pessoas em termos das posições que
ocupam na mobilização do labor social.” (Wolf, 1999: 15). Ao
buscar investigar os grupos humanos e tornar manifestas as maneiras
que eles transformam a si mesmos ao transformarem seus habitats, Wolf
afirma que devemos prestar atenção a quem comanda o labor
disponível para a sociedade e como esse labor é estruturado pelo
exercício de poder e pela comunicação de ideias.

Pela proposta analítica de Wolf há
ainda dois elementos importantes a destacar: a história de
desenvolvimento, transformação e seleção dessas ideias e os
processos de comunicação em que são expostas e manifestas. Em sua
análise, a perspectiva histórica é importante, no sentido de se
identificar elementos que são resinificados, descartados e
adicionados ao longo do tempo, a partir de disputas que vão sendo
estabelecidas. A maneira de se observar esse desenvolvimento é por
meio dos processos de comunicação. Como que fiel a uma tradição
marxista-materialista, Wolf aponta que “ideias ou sistemas de
ideias, é claro, não flutuam sobre um espaço incorpóreo; elas
adquirem substância por meio da comunicação no discurso e na
performance” (Wolf, 1999: 6). E, nesse sentido, está abarcada
tanto a comunicação verbal quanto a não verbal. Discurso e
performance seriam veículos para ideias e, para se analisar as
mensagens transmitidas – e como são compreendidas – seria
necessário posicioná-las adequadamente dentro dos códigos
culturais existentes e os quais os participantes partilham.

Singularidade e a força de
Kurzweil

Decerto nenhuma das correntes do
transhumanismo possui um viés tão personalista quanto o
singularitarianismo. Embora Ray Kurzweil não tenha cunhado o termo,
sua imagem se confundiu à da expressão de maneira inequívoca7.

Originariamente, singularidade é um
termo utilizado pela matemática e pela cosmologia que tem em comum
referirem-se a tendências ao infinito (uma massa, no caso da
cosmologia, e, na matemática, o estado de uma função, por
exemplo). Em 1993, o escritor de ficção científica e matemático
Vernor Vinge, no texto intitulado “The coming technological
singularity: how to survive in the post-human era”8,
utilizou o termo em conexão com o transhumanismo pela primeira vez.
Segundo ele “A aceleração do progresso tecnológico tem sido um
fator central deste século [XX]. Argumento neste artigo que estamos
à beira de uma mudança comparável ao surgimento da vida humana na
Terra. A causa precisa dessa mudança é a criação iminente pela
tecnologia de entidades que expandirão a inteligência humana”. O
texto já ecoava outras utopias científicas da época e foi bastante
discutido principalmente por cientistas da computação, matemáticos,
físicos e amantes de certas variedades da ficção científica9.
Em 2000, o pesquisador em inteligência artificial Eliezer Yudkowsky
escreveu “The Singularitan Principles”10,
em que concretizava a personificação dos singularistas ao afirmar
que esse seria alguém que “é partidário da singularidade. O
singularista é alguém que acredita a criação tecnológica de uma
inteligência maior que a humana é desejável e que trabalha para
esse fim. O singularista é um advogado, agente, defensor e amigo do
futuro conhecido como singularidade”11.
Meses após a publicação, Yudkowsky fundou o Singularity Institute
for Artificial Intelligence, com o apoio de dois empreendedores ponto
com, Sabine e Brian Atkins. O instituto realiza anualmente o
Singularity Summit, encontro cujo uma das características é reunir
singularistas e personalidades do Vale do Silício.

Na primeira página do site do evento
está Kurzweil. Sua adoção do termo singularidade é relativamente
recente se comparada aos primeiros usos feitos por Vinge. The
Singularity is Near: when humans transcend biology
foi publicado
em 2005 e desde lá ele se tornou uma figura a ganhar centralidade.
Mas seus livros de 1990 e 1999 já abordavam o tema de forma geral.
The Age of Intelligent Machines, de 1990, projeta um século
XXI de grande progresso no ramo da inteligência artificial e,
contando com artigos de figuras conhecidas das ciências cognitivas e
da computação, como Daniel Dennet, Marvin Minsky e Saymour Papert,
recebeu prêmios na área da ciência da computação. Já o livro de
1999, The Age of Spiritual Machines, vai um passo além.
Enquanto The Age of Intelligent Machines se detém mais nas
possibilidades da inteligência artificial, The Age of Spiritual
Machines
é um livro sobre os efeitos e a ligação dessa, e de
outras tecnologias, com a humanidade. Nesse livro, Kurzweil se dedica
a fazer previsões sobre que novas tecnologias surgirão nas próximas
décadas, sendo a mais importante a previsão de que as máquinas
atingirão o mesmo nível de inteligência humana nas próximas
décadas.

The Singularity is Near é uma
revisão do livro de 1999 – na verdade, os três livros parecem ser
como versões atualizadas de um mesmo programa, como um software que
tem suas falhas identificadas corrigidas e que ganha novas
funcionalidades. Quero trazer aqui alguns elementos que não estão
somente em seu último livro, mas são repetidos com insistência em
entrevistas à imprensa.

A lei de retornos acelerados
a perspectiva de uma aceleração no progresso tecnológico, que
seria inexorável, deriva em grande parte de uma extrapolação da
conhecida Lei de Moore. O nome desta foi dado por ter sido o
co-fundador da Intel, Gordon Moore quem descreveu a duplicação, a
cada ano, do número de componentes de um circuito integrado, ou
seja, havendo um crescimento exponencial na capacidade computacional
disponível. Kurzweil, porém, afirma ser essa tendência não
somente algo relativo à computação, mas à toda inteligência
existente na Terra. Outros futuristas, como Hans Moravec e Vernon
Vinge já haviam feito comentários semelhantes sobre esse progresso
exponencial. Mas Kurzweil diz fazer suas afirmações a partir de
dados empíricos por ele coletados e checados, que mostrariam que a
exponencialidade seria característica de todos os sistemas
evolutivos (o que inclui tanto seres biológicos como a tecnologia e
o conhecimento). Ao encontrar uma barreira – por exemplo, o
esgotamento das possibilidades de inovação de uma determinada
tecnologia – haveria uma mudança de paradigma, com a adoção de
uma outra solução equivalente, mas já em outro patamar.

Evolução, progresso
a lei dos retornos acelerados deixa claro o cenário para as
transformações tecnológicas. A perspectiva é a da evolução,
inexorável e positiva, fazendo parte da história tanto de sistemas
tecnológicos, como das sociedades humanas. A velocidade crescente é
um valor, não importando o quão frenética seja. Há um
direcionamento na evolução, num sentido de melhoria quantitativa:
mais capacidade de armazenamento de informação em cada indivíduo;
mais anos de vida, talvez infinitos; mais força; mais velocidade –
não só do progresso, mas velocidade mecânica dos seres.
“Tecnologia é a evolução por outros meios”, escreve Kurzweil.
A evolução torna-se um propósito, o sentido da vida. E esta, por
ter uma característica quantitativa (e, portanto, qualitativa), é
capaz de produzir condições ainda mais
favoráveis
para mais desenvolvimento
12.

Informação
– o que faz com que os seres biológicos e tecnológicos se
equivalham é que ambos são informação. A descrição de Kurzweil
para a evolução humana e do universo é a de componentes
progressivamente mais capazes de conter informação. Dividindo o
mundo em eras, a primeira seria a da química e da física, quando
não haveria ainda seres vivos, apenas estruturas físicas formadas
por átomos (sendo o seu arranjo a informação). A era seguinte
seria a biológica e do DNA, capazes de conterem ainda mais
informação. E assim progressivamente, surgindo a tecnologia e a
capacidade de armazenamento ampliando-se exponencialmente.

Fusão homem-máquina
(nanotecnologia+biotecnologia+inteligência artificial) -

tanto homens quanto seus produtos, as máquinas, são tomados
equivalentes, de fato um sendo lido como o sucessor natural do outro.
Como dito, a tecnologia seria a evolução por outros meios e, neste
momento e no futuro, seria mais “natural” por ser mais acelerada
do que a evolução baseada no DNA. No horizonte evolutivo da
humanidade não estariam mudanças tão a longo prazo como as que
levaram ao surgimento da nossa espécie, mas algo mais imediato,
acelerado, como a construção de ciborgues unindo homens e máquinas.
A partir daí, dadas as leis de aceleração, as alterações serias
difíceis de prever, pois esse novo ser, muito mais capaz de
armazenar informação (portanto mais inteligente), seria capaz de
engenheirar seu próprio desenvolvimento, dando origem a uma versão
ainda mais melhorada dessa nova espécie.

Ao lado dessa leitura sobre a
estrutura e os sentidos contidos na fala de Kurzweil, pode ser
interessante discorrer sobre a forma como ele tem sido apresentado na
mídia. Além de ele próprio insistir em uma estrutura repetitiva
para o que fala – quem vê uma de suas entrevistas viu basicamente
todas – as matérias feitas sobre ele repetem itens de sua história
e personalidade que contribuem para a construção de uma determinada
imagem.

Kurzweil invariavelmente é descrito
de forma laudatória, como um inventor de sucesso. Diz a revista
Time:

By that time Kurzweil was thinking
about the Singularity too. He’d been busy since his appearance on
I’ve Got a Secret. He’d made several fortunes as an engineer and
inventor; he founded and then sold his first software company while
he was still at MIT. He went on to build the first print-to-speech
reading machine for the blind — Stevie Wonder was customer No. 1 —
and made innovations in a range of technical fields, including music
synthesizers and speech recognition. He holds 39 patents and 19
honorary doctorates. In 1999 President Bill Clinton awarded him the
National Medal of Technology.”

A revista Veja, em que um
perfil de Kurzweil e de suas previsões para a singularidade estão
inseridas em um conjunto de matérias que falam da expansão do tempo
de vida por meio da tecnologia, o descreve de maneira semelhante.

Convém prestar atenção, porque
Kurzweil costuma acertar. Em seus estudos, premiados
internacionalmente, ele antecipou a ubiquidade da internet e a
vitória do computador sobre o homem no xadrez. Dono de inúmeras
patentes, desenvolveu a primeira máquina de leitura para deficientes
visuais nos anos 1970, cujo cliente número 1 foi o cantor Stevie
Wonder. Criou também um sistema automático para avaliação do
mercado financeiro, ferramenta usada pelos especuladores que mais
ganham dinheiro nos Estados Unidos. Para Bill Gates, o fundador da
Microsoft, Kurzweil é “a melhor pessoa que conheço na previsão
do futuro da inteligência artificial. O físico franzino, a altura
mediana – 1,70 metro – e os olhos a piscar incessantemente não
fazem supor a rede de intricados raciocínios que saem de uma mente
privilegiada, de QI 140”

Como podemos ver, alguns elementos de
autoridade se repetem: as patentes obtidas, a invenção útil e
pioneira, os prêmio, as previsões acertadas, a eficácia do invento
usado pelos “que mais ganham dinheiro”, o endosso de alguém com
sucesso financeiro e com reputação na área tecnológica e o QI
elevado.

Quando a história de vida de
Kurzweil é contada, surgem elementos biográficos que aumentam esse
efeito. A matéria da revista Time abre com a descrição de uma cena
televisiva datada de 1965. Em rede nacional nos EUA, com apenas 17
anos, Kurzweil participou de um programa de auditório em que sua
missão era impedir que uma bancada de celebridades descobrisse qual
era seu segredo – o nome do programa era I’ve got a secret.
Kurzweil senta-se ao piano e toca uma música. Após várias
perguntas o segredo é revelado, a música tocada pelo jovem foi
composta por um computador, não era uma composição humana. O
computador sim foi criado por ele.

Em Transcendent Man vemos que
o “jovem gênio” guarda uma tristeza que o move e dá sentido a
sua obsessão com o prolongamento da vida. Kurzweil perdeu o pai, que
era músico, quando este tinha aos 58 anos, fruto de doenças
cardíacas. Após esse episódio Kurzweil teria se dedicado a estudar
profundamente a si mesmo, sua saúde, seu corpo, reunindo o máximo
possível de dados sobre si e buscando pílulas que o ajudariam a
evitar doenças. Somos informados que ele ingere 230 comprimidos por
dia. Mas sua obsessão não é só com evitar a própria morte, mas
também trazer de novo a algum novo tipo de vida o próprio pai.
Kurzweil mantém arquivos de tudo o que o pai produziu, em todos os
sentidos. Também procura mantê-lo vivo em sua memória para, quando
a tecnologia permitir, trazer à “vida” uma espécie de nova
versão do pai. Ele responde assim, quando essa questão é colocada
por um dos espectadores que acabara de ver o filme.

Question: In regards to the project
of resurrecting your father, what is your purpose in doing so, and
how will you know you succeeded?

Ray Kurzweil: …I have this desire
and inclination to preserve the knowledge and skill he represented.
How do you present that? You could present it as a big database of
information – that’s not how we interact with people. The best
way to interact with that would be an avatar that represented his
personality and skills. That’s something I would find personally
gratifying. I’ve discussed it with many people and surprisingly
people who aren’t into the Singularity find this idea appealing.
Especially if they are struggling with dealing with the loss of
someone they care about it. They way they I would know if I had
succeeded would be if it passes a Frederick Kurzweil Turing Test.
That’s getting to be an easier test as time goes by because my
memories are fading. I would argue that this avatar would be more
like my father than would be if he had lived. That’s not
impossible, he would be 98 now. If he were 98 he’d be much less
like he was when I remember him at 58. [pause] So, that’s how I
would tell.13

Os elementos contidos nas matérias
que descrevem essa investida em busca da singularidade e seu
propositor mais notório não diferem muito da caracterização
típica feita de cientistas na mídia popular (Castelfranchi, 2006).

Ideologia da Califórnia

Chama a atenção grande envolvimento
que empreendedores do Vale do Silício – e seus funcionários,
aspirantes a novos milionários – tem tido financeiramente e
intelectualmente com essa vertente do transhumanismo. Sergey Brin, um
dos fundadores do Google, apresentou-se como parte homem parte robô,
na aula inaugural do curso de curta duração da Universidade da
Singularidade, em 2010. Seu sócio, Larry Page, doou US$ 250 mil, em
2008, para a instituição, no que foi seguido por alguns dos
primeiros funcionários do Google, que contribuíram individualmente
com US$ 100 mil dólares cada. “Algumas das pessoas mais
inteligentes e prósperas do Vale do Silício abraçaram a
singularidade”, pontua matéria do New York Times14.
“A singularidade é sobre pessoas ricas construindo um bote
salva-vidas e pulando fora do barco”, comenta o jornalista
britânico Andrew Orlowski, do portal sobre tecnologia da informação
The Register.

E
essa é uma das razões pelas quais parece ser interessante
investigar e etnografar as ideias em torno da utopia singularista.
Não só por envolver e encantar – a ponto de obter financiamento –
os novos milionários, mas por estes se localizarem, em suas
operações, em uma área específica, polo atrator de competências
similares e inteligências, grande influenciador cultural e de novos
investimentos.
Esse conjunto de ideias, práticas e
mobilizações tecnoprodutivas, seria só uma excentricidade não
fosse suma imbricação com um modo de pensar, de ver o mundo com
alto poder de influência desde, pelo menos, a década de 1990, e que
Richard Barbrook e Andy Cameron chamaram de Ideologia da Califórnia.

Esta nova fé emergiu de uma
bizarra fusão da boemia cultural de São Francisco com as indústrias
de alta tecnologia do Vale do Silício. Promovida em revistas,
livros, programas de televisão, páginas da rede, grupos de notícias
e conferências via Internet, a Ideologia da Califórnia
promiscuamente combina o espírito desgarrado dos hippies e o zelo
empreendedor dos yuppies. Este amálgama de opostos foi atingido
através de uma profunda fé no potencial emancipador das novas
tecnologias da informação. Na utopia digital, todos vão ser
ligados e também ricos. Não surpreendentemente, esta visão
otimista do futuro foi entusiasticamente abraçada por nerds de
computador, estudantes desertores, capitalistas inovadores, ativistas
sociais, acadêmicos ligados às últimas tendências, burocratas
futuristas e políticos oportunistas por todos os EUA. Enquanto o
recente relatório de uma Comissão da União Européia recomenda
seguir o modelo californiano de “livre mercado” para
construir a “superestrada da informação”, artistas de
vanguarda e acadêmicos imitam avidamente os filósofos “pós-humanos”

do culto Extropiano da costa oeste. Sem rivais óbvios, o triunfo da
Ideologia da Califórnia parece completo.” (Barbrook e Cameron,
1996)

Barbrook e Cameron (1996) seguem
descrevendo esse conjunto de ideias contraditórias que teriam origem
nessa mescla incomum entre a contracultura e seu exato oposto yuppie.
Sua ênfase está mais na apropriação de uma visão neoliberal do
funcionamento da economia, uma crença no poder criador de indivíduos
isolados, somada com profunda aversão a qualquer interferência do
Estado, por herdeiros culturais de uma tradição de costumes
liberais. Apontam ainda a confluência entre uma inquietude do
trabalho criativo e ideias de liberdade, que não se conforma a
regras burocráticas do emprego formal com horários rígidos de
trabalho, com a flexibilização do mercado de trabalho, em que o
contrato é por tempo determinado, as ligações entre empregado e
empregador não são fixas (quase um relacionamento aberto, seria
curioso acrescentar), assim como não o é o tempo de trabalho. Mas,
pressionado pelas exigências, esse trabalhador criativo dedica-se a
muito mais horas a seu ofício, ficando com escasso tempo livre; e,
então, precisa fazer do trabalho seu “caminho de autossatisfação”
(Barbrook e Cameron, 1996). Uma intricada combinação entre uma nova
estrutura do mercado de trabalho e a adoção de ideias que ligam
prazer, diversão e dedicação obstinada ao trabalho, que é também
uma construção de si mesmo como ativo de valor para as empresas
(Evangelista, 2010).

Analisando principalmente a revista
Mondo 2000 – produzida na Califórnia, publicação bastante
influente na cibercultura da costa oeste dos EUA nas décadas de 1980
e 1990 -, Terranova (1996) fala sobre um conjunto de subculturas da
cibercultura, que compartilham algumas ideias, mas
aparentemente se distinguem em alguns aspectos. Segundo ela, Mondo
2000

retrata seus leitores como “surfistas da New Edge, não apenas
pessoas caracterizadas por um interesse por novas tecnologias, mas
também possuindo qualidades como ‘um espírito independente, uma
mente selvagemente especulativa, imaginação ilimitada e ousadia’”,
um tipo de descrição que facilmente poderia ser dada, no início do
século XX, aos “self-made tycoons” e mais tarde foi associada à
autoimagem dos “novos ‘criadores’, galera ‘empreendedora’”. Ao
mesmo tempo, ela distingue o público da Mondo 2000 dos extropianos –
do culto extropiano citado por Barbrook e Cameron. Ela reproduz o
trecho de um texto contido no site do Extropy Institute, da
Califórnia, em que afirma-se que os extropianos fazem escolhas sobre
suas carreiras que espelham ideias extropianas: “muitos são
engenheiros de software, neurocientistas, engenheiros aeroespaciais,
criptologistas, consultores em privacidade, planejadores de
instituições, matemáticos, filósofos e médicos pesquisando
técnicas de extensão da vida”. Há ainda um comentário sobre a
inclinação política dos extropianos: “muitos são muito ativos
em políticas libertárias e em processos legais que enfrentam o
abuso do poder governamental”. Assim, igualmente interessados no
transhumanismo, enquanto a Mondo
2000

reuniria um público mais alternativo, com inclinações artísticas,
os extropianos teriam um perfil mais conservador, possivelmente mais
assemelhado, embora não equivalente, aos singularistas de hoje.
Retomaremos mais à frente a questão das inclinações políticas
libertárias de alguns singularistas.

David Harvey e Michel Foucault falam
no neoliberalismo – liberalismo
americano,
no caso de Foucault – como algo de força, no sentido de amplo
espectro, que conforma outras ideias a partir de sua grade.
David
Harvey (2008) aponta as corporações, junto com os meios de
comunicação e certas
instituições
da sociedade civil, como os principais vértices de “geração de
consentimento popular para legitimar a virada neoliberal” ocorrida
a partir de meados dos anos 1970. Sua análise é de algo que é
empurrado globalmente em função de uma agenda. Segundo Harvey, as
mudanças em termos de política econômica realizadas pelos governos
Reagan, nos EUA, e Thatcher, na Inglaterra, necessitaram antes da
construção de um consentimento político em boa parte da população.
Usando a idéia de Gramsci de senso comum (“o sentido sustentado em
comum”), Harvey afirma que este foi operacionalizado usando-se
especialmente a palavra liberdade. “A palavra ‘liberdade’ ressoa
tão amplamente na compreensão do senso comum que têm os
norte-americanos que se ‘tornou um botão que as elites podem
pressionar para abrir a porta às massas’ a fim de justificar quase
qualquer coisa”. (Harvey, 2008: 50).

O apertar do botão de que fala
Harvey abriu as portas para o que Michel Foucault descreveu, ainda em
1979, como a utopia liberal. O movimento consciente de construção
dessa utopia, em contraposição às que a esquerda vinha construindo
há anos, poderia ser lido no economista austríaco Friederich Hayek.
Segundo Foucault, o liberalismo americano seria mais do que uma opção
econômica, “mas um estilo geral de pensamento, análise e de
imaginação” (Foucault, 2008: 302).

“…o liberalismo americano não é
– como é na França destes dias [1979], como ainda era na Alemanha
no imediato pós-guerra – simplesmente uma opção econômica e
política formada e formulada pelos governantes ou no meio
governamental. O liberalismo, nos Estados Unidos, é toda uma forma
de ser e de pensar. É um tipo de relação entre governantes e
governados, muito mais do que uma técnica dos governantes em relação
aos governados. Digamos, se preferirem, que, enquanto num país como
a França o contencioso dos indivíduos em relação ao Estado gira
em torno do problema do serviço e do serviço público, o
contencioso nos Estados Unidos entre os indivíduos e o governo
adquire ao contrário o aspecto do problema das liberdades. É por
isso que eu creio que o liberalismo americano, atualmente, não se
apresenta apenas, não se apresenta tanto como uma alternativa
política, mas digamos que é uma espécie de reivindicação global,
multiforme, ambígua, com ancoragem à direita e à esquerda. É
também uma espécie de foco utópico sempre reativado. É também um
método de pensamento, uma grade de análise econômica e
sociológica.” (Foucault, 2008: 302)

Embora o texto de Barbrook e Cameron
(1996) seja certeiro ao localizar geograficamente a Ideologia da
Califórnia15
e apontar sua estrutura principal, a defesa do livre mercado e um
questionamento com relação à interferência do Estado nos costumes
dos cidadãos, a descrição não é exaustiva e o desenvolvimento
dos últimos anos oferece interessantes desdobramentos para algumas
das contradições apontadas. Eles veem contradições e
potencialidades; contradições principalmente na inter-relação
entre Nova Esquerda e Nova Direita que a Ideologia da Califórnia
estabeleceria; e potencialidades no fato de os nós da rede, os
“artesãos digitais” estarem alimentando a internet com “gifts”,
com o commons intelectual (Barbrook, 2000). Ambas parecem
estar de certa forma resolvidas ou neutralizadas. A preocupação
ambiental, a ecotopia dos hippies, encontra guarida na filantropia
direcionada nos empresários do Vale do Silício, que alimentam
projetos de desenvolvimento de tecnologias para resolver problemas
ecológicos (remendos tecnológicos para o aquecimento global,
energias alternativas etc). A democracia se torna sinônimo e é
simbolizada pelo culto à transparência, de governos, instituições
e indivíduos. Já os gifts alimentam o que Pasquinelli (2008)
chama de “criatura vampírica tentacular”, as empresas de
infraestrutura de rede que se nutrem dos fluxos da internet
(comercializando propaganda ou perfis de usuários, vendendo acesso).

Pasquinelli, posiciona a Ideologia da
Califórnia como representação de um aparato de poder central, a
contraparte aos ativistas políticos da Cultura Livre (cujos maiores
representantes símbolo Lawrence Lessig, advogado da Creative
Commons, e Yochai Benkler, acadêmico de Harvard). Ela estaria dentro
do que chama de digitalismo, que seria “um tipo de gnose moderna,
igualitária e barata, em que a religião do conhecimento é
substituída pelo culto iluminista da rede digital e seus códigos”.
Segundo ele, o tecnoparadigma do digitalismo posicionaria o campo
semiótico e biológico em paralelo, e sua utopia seria uma
digitalização universal “Google-like”, em que o material e
imaterial seriam intercambiáveis (Pasquinelli, 2008; 72). Vale
apontar aqui a crença dos singularistas em uma possível
virtualização total da vida, em que cada indivíduo assumiria, à
sua escolha, a identidade que quisesse16.

Nesse sentido, a análise que Breton
(xx) faz dos escritos de Norbert Wiener, conhecido como fundador da
cibernética, nos ajuda a inter-relacionar a visão sobre o humano da
Ideologia da Califórnia e do singularismo. Segundo Breton, o projeto
utópico de Wiener se articula em torno da comunicação e
desenvolve-se em três níveis: uma sociedade ideal, uma outra
definição antropológica do homem e uma promoção da comunicação
como valor. Os três níveis concentrados em torno do homem novo, que
Breton chama de Homo communicans. “O
Homo communicans é um
ser sem interior e sem corpo, que vive em uma sociedade sem segredo;
um ser totalmente voltado para o social, que só existe através da
troca e da informação, em uma sociedade tornada transparente graças
às novas ‘máquinas de comunicação’.” (Breton, xxx). O corpo
humano da singularidade pode ser tornado máquina, pois não está
nele o humano. Este está na informação, na memória que
singularistas como Hans Moravec (Haraway, 2009) querem passar para um
chip, assim atingindo a imortalidade.

Turner (2006) analisa uma das
publicações pioneiras e mais influentes da Califórnia, o Whole
Earth Catalog
. Editada em forma de catálogo, tinha uma estrutura
que, mais tarde Steve Jobs, da Apple, iria comparar a um mecanismo de
busca offline. Um de seus editores era Kevin Kelly, que depois
seria cofundador da Wired, reputadamente a revista símbolo do
Vale do Silício. Mas Turner não se detém a um escrutínio da
publicação, ao contrário, refaz toda uma trajetória histórica
que busca entender que tipo de confluências políticas, culturais e
de atores levaram do movimento da contracultura à cibercultura.

Um dos pontos de apoio seria uma
recusa comum a um mundo da Guerra Fria associado à burocracia. Esta
era ligada ao militarismo, ao mundo corporativo tradicional ou mesmo
acadêmico, como espelhos que se refletem, em que as pessoas eram
ensinada a “desempenhar um papel específico em uma estrutura
organizacional” (Turner, 2006: 12). Esse treinamento domaria a
natureza complexa e criativa dos indivíduos, transformando-os na
chatice unidimensional de um cartão de um computador IBM. Por sua
vez, desumanizados, dessensibilizados, os indivíduos formariam as
peças autômatas da máquina de guerra que jogou a bomba em
Hiroshima e levava à cabo a Guerra do Vietnã.

Esse imaginário, porém, é repleto
de contradições. Ver o mundo como um sistema de troca e feedback
entre humanos, a sociedade a partir da metáfora de um sistema
computacional interligado, ecoa a cibernética de que Norbert Wiener
é um dos principais contribuidores. Este foi um dos pensadores
importantes no desenvolvimento dos sistemas de defesa da Guerra Fria,
na construção de equipamentos de mira automática para alvos
móveis. Foi também integrante das Macy Conferences, eventos
interdisciplinares que, embora fossem promovidos por uma instituição
filantrópica dedicada a problemas médicos, reuniram intelectuais
envolvidos no esforço da Segunda Guerra como Margaret Mead e John
von Neumann. Segundo Streeter (2003), o acesso de figuras como Kevin
Kelly e Stewart Brand, os editores do Whole Earth Catalog, à
cibernética de Wiener veio por intermédio da antropologia de
Gregory Bateson17,
também participante das Macy Conferences. Nos anos 1970, Brand
elevou Bateson ao status de guru18.

Entretanto, entre os computadores
mainframe da IBM rejeitados pela contracultura como símbolo de
hierarquia e burocracia e a rede de pontos independentes da
glorificada internet, há uma passagem importante. No mundo IBM
haveria o planejamento no sentido top down; na internet,
haveria nós de um sistema que seria como o da natureza e tenderia ao
em equilíbrio. Turner (2006) cita como Kelly explica o universo como
um computador, o pensamento como um tipo de computação, o DNA como
software e a evolução como um processo algorítmico. O fundador da
Eletronic Frontier Fountation, John Perry Barlow, escreve que, na
rede, os corpos sem identidade e sem coerção física, terão uma
governança que emergirá “da ética, auto interesse iluminado e do
bem da comunidade”19.
Barbrook (1996) afirma que Kelly, em seu livro Out of Control,
repete o darwinismo social.

…‘Out of Control’ argues that
American-style ‘free market’ capitalism is not a peculiar social
creation, but an ahistorical natural eco-system. The ‘invisible
hand’ of the marketplace and the blind forces of Darwinian
evolution are one and the same thing (pp. 27-32, 509). As proved by
the collapse of the USSR, any attempt by the state or the community
to plan or regulate the development of capitalism is against the laws
of nature (pp. 52-3). The social can only be produced as “spontaneous
order” – the emergent property of individual consumers and
producers pursuing their own self-interests in an unregulated
marketplace (p. 157). Like members of a swarm of bees or a flock of
birds, people cannot influence their own destiny (pp. 6-14). The
future is ‘out of control’.” (Barbrook, 1996)

A pista para entender como o
esquerdismo hippie dos anos 1960 desemboca em uma visão de mundo
muito mais sem compaixão como a do darwinismo social está na
diferenciação que Turner faz entre Nova Esquerda e o que ele chama
de Novo Comunalismo, ambos formados durante o mesmo período, por uma
geração herdeira da fase mais dura da Guerra Fria, que compartilha
a aversão ao autoritarismo e, principalmente, à guerra. A Nova
Esquerda teria nascido ao sul profundo dos EUA, abraçado o ativismo,
participado da luta política e estaria ligada ao movimento pela
liberdade de expressão. Já os Novos Comunalistas teriam surgidos de
movimentos de construção de comunidades alternativas, marcadas pela
poesia e ficção beat,
zen-budismo e, a partir dos anos 1960, experimentação com drogas
psicodélicas. As mais
notórias comunidades da época foram fundadas no norte da
Califórnia, Colorado, Novo México e Tenesee, em áreas rurais, mas
também houve comunidades urbanas. Os Novo Comunalistas, “mesmo
quando se estabeleceram em zonas rurais, quando retornaram pra casa
frequentemente adotaram práticas colaborativas, a celebração da
tecnologia e a retórica cibernética da pesquisa
academico-militar-industrial do
mainstream
(Turner, 2006: 33). Os dois grupos foram confundidos sob o mesmo nome
contracultura, porém, enquanto para a Nova Esquerda a “verdadeira
comunidade e o fim da alienação eram geralmente pensados como
resultado da atividade política”, para o Novo Comunalismo a
política era na melhor das hipóteses um ponto supérfluo e, na
pior, parte do problema. (Turner, 2006: 35-36).

Libertarianismo, Ayn Rand e a nova
elite

Se
os digitalistas ou a Ideologia da Califórnia são herdeiros desse
conjunto de contradições, os singularistas parecem ter um perfil
político mais definido, pelo menos os seus maiores incentivadores.
Diversos comentaristas assinalam a influência da ficção de Ayn
Rand no Vale do Silício
20.
No documentário
All Watched Over by Machines of Loving
Grace
(Curtis, 2011), a tese é
defendida pelo diretor Adam Curtis, que lembra que muitos desses
empreendedores participaram de grupos de leitura de Rand e deram a
seus filhos e empresas o nome de personagens de suas novelas. Ayn
Rand foi uma atípica roteirista, novelista e filósofa, cujas obras
acima de tudo defendiam um ponto de vista político, atacando o
altruísmo e todo o tipo de filantropia e ajuda governamental aos
cidadãos. Seus heróis eram empreendedores independentes,
individualistas e solitários frequentemente incompreendidos, que
lutavam contra sindicatos, governos e tradições. A biógrafa de
Rand, Jennifer Burns também confirma essa ligação de ideias com os
empreendedores da nova economia (Burns, 2009). Desafiando grandes e
antigas corporações que tornam seus empregados homens sem alma das
organizações (como a imagem
que
se fazia da IBM, podemos acrescentar) “sua visão ressoou nos
trabalhadores intelectuais da nova economia, que viam a si mesmos
como operadores estratégicos de um cenário econômico em constante
transformação. Rand ganhou devoção infinita de grandes e pequenos
capitalistas tratando os negócios como uma vocação honorável que
pode mobilizar as capacidades mais profundas do espírito humano”
(Burns, 2009: 3). Rand colecionou polêmicas durante sua vida,
desenvolvendo uma relação controversa com o Partido Libertário
dada a proximidade da novelista com líderes do Partido Republicano –
os libertários defendem políticas econômicas antiestatistas, ao
mesmo tempo que lutam contra o conservadorismo cultural da direita.
Mas sua influência foi inegável: no final da década de 1970, 75%
dos membros do Partido Libertário da Califórnia afirmavam ser
Atlas
Shrugged
– o maior best
seller
de Rand – seu livro
preferido, enquanto
The Virtue of Selfishness,
uma coleção de ensaios filosóficos de Rand – figurava em terceiro.

Um
grande fã de Rand e reconhecido libertário figura entre os maiores
apoiadores financeiros das instituições de pesquisa e promoção da
singularidade. Peter Thiel foi até mesmo objeto de reportagem da
revista
Wired,
após sua participação no Singularity Summit de 2007. “Peter
Thiel explica como investir na singularidade”, foi o título da
matéria. O bilionário, que enriqueceu principalmente após seus
investimentos no PayPal, coloclou, em 2006, US$ 3,5 milhões na

Methuselah Foundation
,
instituto de pesquisa capitaneado por outra figura proeminente em
eventos da singularidade, o biólogo Aubrey de Grey (cujo perfil
também constou da matéria da revista
Veja
comentada no início deste texto). De Grey defende que a primeira
pessoa a viver até os 1000 anos, graças aos avanços da medicina,
já nasceu, e que a partir do momento que a ciência for capaz de
manter humanos vivos até os 150 anos, avançará muito rapidamente
de forma a multiplicar essa longevidade por dez. A fundação de
Thiel também investiu US$ 1,1 milhão no Singularity Institute – o
segundo maior doador é Jaan Tallinn, com apenas US$ 100 mil
21
– e é a principal patrocinadora do Singularity Summit de 2011
22.

Corroborando
a citação do jornalista inglês Andrew Orlowski feita acima,
a
singularidade parece atrair especial atenção de bilionários que a
veem como possível esperança de imortalidade e algum tipo de
transcendência. Mas há indicações de que ela é mais do que isso,
funciona também como um investimento de risco, mais um lugar onde os
empreendedores da nova economia colocam suas fichas esperando
recolherem grandes prêmios por sua ousadia. Em reportagem com ares
de etnografia da nova classe plutocrática, Freeland (2011) assinala
que “o que é notável nos plutocratas de hoje é que eles tendem a
aplicar suas fortunas da mesma maneira que as ganharam:
empreendendo”. Cada vez mais desconectados da base social de seus
países, esses novos bilionários estabelecem laços sociais de
classe em espaços globais como o Fórum Econômico de Davos e hotéis
cidades exclusivas de alto luxo. Veriam a si mesmos como heróis
randianos: ousados empreendedores que venceram graças à
meritocracia do mercado, diferentes dos bilionários herdeiros do
passado. Em sua ânsia randiana, como um personagem de
Atlas
Shrugged
, Thiel também investe
no Seasteading Institute
23,
que constrói uma ilha artificial e auto-suficiente em alto mar, fora
da jurisdição dos países. Thiel acredita que democracia e
libertarianismo são incompatíveis, e que a única saída para os
libertários é construírem seu próprio mundo, via tecnologia,
“indo além da política” (Thiel, 2009).

Não parece possível igualar essa
nova plutocracia que descreve Freeland (2011) com os singularistas,
mas há indícios de que os mais proeminentes investidores da
singularidade integram o grupo e compartilham de algumas de suas
características.

Conclusão

O
caráter deste texto é preliminar, ou seja, o objetivo não é
esgotar a questão, mas trazer elementos que permitam entender como
utopias tecnológicas como a da singularidade se inter-relacionam com
outros conjuntos de ideias sobre o digital, a rede e a internet, como
a Ideologia da Califórnia e o digitalismo. A singularidade, como uma
das facetas do transhumanismo, ao que
tudo
indica empresta metáforas sobre o universo e o a humanidade que os
postulam como aproximados das máquinas em rede, em relações de
troca de informações e de estabilidade. Ao mesmo tempo, as máquinas
em rede são aproximadas de um certo imaginário sobre o biológico,
seja em sua estrutura como sistema que tenderia à estabilidade, seja
em seu direcionamento evolutivo. Máquinas em rede que formam
sistemas tendendo à estabilidade, seres biológicos em competição
evolutiva num cenário econômico de livre mercado naturalizado.
Igualadas aos sistemas biológicos as máquinas surgem como nova
fronteira, novo
feature
evolutivo da humanidade.

Uma investigação de pessoas e
instituições como essas, que formam a elite do capitalismo do
capitalismo tecnológico, é sempre difícil, dado o acesso limitado
a que se tem a esses atores, muitas vezes restrito a suas produções
colocadas ao grande público. Contudo, é bastante necessária, dado
que são eles que tem melhores condições de mobilizarem o trabalho
em direção à construção das tecnologias da singularidade –
notadamente a inteligência artificial, a nanotecnologia e a
biotecnologia – e de construírem consensos em torno de que direção
está apontando o futuro.

Ribeiro
(1999) fala sobre como a “a
dupla face utópica
(paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia é central
para entendermos os dilemas que cada vez mais enfrentaremos”. A
tecnotipia, “caudatária da ideologia do progresso e de uma visão
evolutiva da história da tecnologia”, hoje o “grande metarrelato
salvífico do mundo contemporâneo”, seria hegemônica. Seja como
tecnotopia ou tecnofobia, o ciborgue seria hoje a metáfora mais
presente e pelas metáforas sobre a rede, a natureza e o humano
vistas aqui podemos entender o porquê. Ribeiro afirma a internet
“como espaço privilegiado do exercício do poder da classe
virtual, a versão da classe dominante na era
eletrônico-informática”, mas vemos que essa classe, por meio de
suas ideias e ideologia, não se restringe a um lugar na rede, mas
estende a rede cibernética como metáfora para o universo material,
direcionando assim as forças produtivas de modo a englobá-lo. Mesmo
quando os investimentos feitos não parecem elevados é preciso ter
em mente o caráter altamente especulativos dos investimentos em
tecnologia, com muitas dessas empresas lucrando efetivamente pouco,
mas sendo inundadas de dinheiro ao entrarem na bolsa. Sem querer
reproduzir aqui algum tipo de cenário fatalista de dominação
ideológica, o caminho parece ser buscar esmiuçar essas ideias e seu
funcionamento, tendo em perspectiva relações de produção e de
poder.

Bibliografia

Barbrook,
Richard e Cameron, Andy. Californian Ideology. Disponível em:
http://www.alamut.com/subj/ideologies/pessimism/califIdeo_I.html.
Acesso em 20/08/2011. 1996

Haraway,
Donna. “Se nós nunca fomos humanos, o que fazer?” Cf.
http://www.pontourbe.net/edicao6-traducao.
Acesso em 20/08/2011.

RIBEIRO, Gustavo Lins.
“Tecnotopia versus Tecnofobia: o Mal- Estar no Século XXI”,
Brasília: UnB/DAN (Série Antropologia 248). Cf
http://vsites.unb.br/ics/dan/Serie248empdf.pdf
Acesso em 20/08/2011. 1999

Thiel,
Peter. “Education as Libertarian”. Cf.
http://www.cato-unbound.org/2009/04/13/peter-thiel/the-education-of-a-libertarian/.
Acesso em 20/08/2011. 2009.

Barbrook, Richard.
“Cyber-communism: how the Americans are superseding capitalism in
cyberspace”, Science as Culture, Number 1, Volume 9, 2000

Freeland, Chrystia. “The
Rise of the New Global Elite”. The Atlantic.
Janeiro/fevereiro, 2011.

PASQUINELLI, Matteo.
Animal Spirits: A Bestiary of the Commons (Rotterdam: NAi
Publishers / Institute of Network Cultures, December 2008.

Winner, Langdon, “Are
Humans Obsolete?”. The Hedgehog Review 4.3 Fall 2002

CASTELFRANCHI, Y., et al.
Children’s perceptions of science and scientists. 9th

International
Conference on Public Communication of Science & Technology

(PCST-9). Seul, 2006.

Burns, Jennifer. Goddess
of the Market: Ayn Rand and the american right
. Oxford University
Press, 2009

Evangelista, Rafael de
Almeida. Traidores do movimento: política, cultura, ideologia e
trabalho no Software Livre
. Tese de Doutorado. IFCH/Unicamp,
2010.

Barbrook, Richard. “The
Pinocchio Theory” em Science as Culture. Volume 5, Número
3. 1996

Feldman-Bianco, Bela e
Ribeiro, Gustavo Lins. “Antropologia e Poder: Contribuições de
Eric Wolf”. Etnográfica, Vol VII (2), 2003.

Streeter, Thomas. ““That
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http://www.uvm.edu/~tstreete/romantic_chasm.html
Acesso em 20/08/2011

Curtis, Adam. All
Watched Over by Machines of Loving Grace
. BBC. 2011

Ptolemy, Barry.

Transcendent Man. 2009

Foucault, Michel.
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Harvey, David. O
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2008

Kurzweil, Raymond. The
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. Ed. Viking.
2005

Virilio, Paul. Velocidade
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. Estação Liberdade. São Paulo, 1996

Wolf, Eric. Envisioning
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. University of California Press, 1999.

Turner, Fred. From
Counterculture to Cyberculture. Stwart Brand, the Whole Earth Catalog
and the rise of the digital utopianism
. The University of Chicago
Press. 2006

Breton,
Phillipe. “Norbert Wiener e a emergência de uma nova utopia”.
1995. Cf em
http://members.fortunecity.com/cibercultura/vol1/breton.html
Acesso em 20/08/2011


Terranova,
Tiziana. “Posthuman unbounded: artificial evolution and high-tech
subcultures,” in G. Robertson, M. Mash, et al., FutureNatural:
Nature, Science, Culture. Routledge; 1 edition (April 26,
1996)

Sites consultados:

Arquivo de discussões do
Singularity Institute

http://www.sl4.org/archive/

Wikipedia

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Age_of_Spiritual_Machines

http://en.wikipedia.org/wiki/Accelerating_change

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Singularity_Is_Near

http://en.wikipedia.org/wiki/Jaan_Tallinn

http://en.wikipedia.org/wiki/Singularity_Institute_for_Artificial_Intelligence

http://en.wikipedia.org/wiki/Whole_Earth_Catalog

http://en.wikipedia.org/wiki/Ray_Kurzweil

http://en.wikipedia.org/wiki/Singularitarianism

The Thiel Foundation

http://www.thielfoundation.org/index.php

Singularity Institute

http://singinst.org

Singularity University

http://singularityu.org

Singularity Summit

http://www.singularitysummit.com/

The Seasteading Institute

http://seasteading.org/

Methuselah Foundation

http://www.mprize.org/

1O
propósito aqui não é aceitar essa divisão de grupos como
definitiva ou inquestionável, mas apenas indicar a existência de
diferentes grupos. Cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Transhumanism

Acesso em 20/08/2011

2Grossman,
Lev “2045: The Year Man Becomes Immortal” em Time. 10
de fevereiro de 2011

3Guandalini,
Giuliano. “Deus existe? Ainda não”.
Veja,
15 de junho de 2011.

6Cf.
http://singularityu.org/about/overview/
Acesso em 20/08/2011

7Muitos
dos singularistas tratam as instituições, crenças, ideias e
esforços como um “movimento cultural”. Pode-se afirmar que,
embora tenham existido e continuem a existir diversas instituições
(grupos formalmente estabelecidos, encontros, publicações
coletivas) transhumanistas muito fortes antes do protagonismo de
Kurzweil, este acabou eclipsando as singularistas em particular.

9Aqui
um exemplo de respostas http://hanson.gmu.edu/vc.html

Acesso em 20/08/2011

11“Singularitarians
are the partisans of the Singularity. A Singularitarian is someone
who believes that technologically creating a greater-than-human
intelligence is desirable, and who works to that end. A
Singularitarian is advocate, agent, defender, and friend of the
future known as the Singularity.” , no original em
http://yudkowsky.net/obsolete/principles.html

Acesso em 20/08/2011

12A
importância da ideia de evolução na Ideologia da Califórnia será
discutida mais à frente.

14
Vance, Ashlee. “Merely human? That’s so yesterday”. The New
York Times
12 de janeiro de 2011

15Nesse
sentido, vale acrescentar a citação: “A
Ideologia Californiana foi desenvolvida por um grupo de pessoas
vivendo em um país específico, com uma mistura particular de
escolhas sócio-econômicas e tecnológicas. Seu coquetel
contraditório e eclético de economia conservadora e radicalismo
hippie reflete a história da costa oeste – e não o futuro
inevitável do resto do mundo.” (Barbrook e Cameron, 1996)

16Kurzweil
já fez apresentações com realidade virtual em que assume a
identidade de uma jovem roqueira de nome Ramona (Cf.
http://www.youtube.com/watch?v=i25nHWuVZW4
Acesso em 20/08/2011)

17“Wiener
se encontra na origem do “recentramento” que permite
caracterizar o homem não como sujeito individual mas, antes, a
partir de sua atividade de intercâmbio social. Rejeitando a questão
do sujeito como indivíduo isolado ao deslocá-la para essa
atividade, o pai da cibernética funda assim uma nova visão da
igualdade. Assenta as bases de uma nova antropologia, a qual Gregory
Bateson será um dos mais fiéis construtores. Nessa perspectiva,
todos os seres comunicantes possuem um estatuto antropológico
comparável, desde que estejam todos no mesmo nível de
complexidade”. (Breton, 1995)

18“In
the `70s, Stewart Brand went on to elevate Bateson to the status of
guru, particularly in the pages of Coevolution Quarterly. And
then in the early 1980s, Coevolution Quarterly evolved into
the Whole Earth Software Review, essays about solar power were
replaced by reviews of the latest computer software, and
Coevolution’s nonprofit egalitarian principles (e.g., all employees
received the same pay) were replaced by a for-profit inegalitarian
salary structure; several of the key figures in this 1980s
evolution, like Art Kleiner and Kevin Kelly, went on to become
founders and contributors to Wired magazine. Throughout this
kaleidoscopic four-decade process the term “cybernetics”
remains a constant.” (Streeter, 2003)

19Barlow
escreveu a primeira versão da “Declaração de Independência do
Ciberespaço” de seu laptop, em Davos, enquanto participava do
Fórum Econômico Mundial e combatia leis estadunidense que buscavam
restringir a pornografia na rede (Turner, 2006: 13).

20Em
um blog da revista Forbes: “Kurzweil is the de facto leader of the
Singularity movement, which, second only to Ayn Rand libertarianism,
is an influential school of thought in Silicon Valley.” Cf.
http://blogs.forbes.com/leegomes/2010/08/17/is-silicon-valley-visionary-hero-ray-kurzweil-actually-just-a-pseudo-scientific-dingbat/?boxes=Homepagechannels
Acesso em 20/08/2010

21Cf.
http://singinst.org/donors

Acessado em 20/08/2011

22Cf.
http://www.singularitysummit.com/
Acessado em 20/08/2011

23O
Seasteading
Institute, por sua vez, aparece como um dos parceiros do Singularity
Summit 2011.

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