Anotações de campo sobre o Singularity Summit Itália

Foi chamado de Singularity Summit Italy (http://www.singularitysummit.it/defaultEN.asp). Anualmente, o http://en.wikipedia.org/wiki/Singularity_Institute_for_Artificial_Intelligence organiza uma reunião chamada Singularity Summit. Não se tratou de uma versão italiana oficial do evento, mas de uma tentativa da instituição chamada iLabs de organizar algo na Itália sem a chancela oficial. No programa estavam falas de Ray Kurzweil (o papa da singularidade), Aubrey de Grey (London on April, 20, 1963, graduated in Computer Science from Cambridge, he is an expert in the field of gerontology. He is co-founder and Chief Science Officer of SENS Foundation, which develops anti-ageing strategy according to the SENS agenda.) e dos dois hosts do evento, Gabriele Rossi e Antonella Canonico (um casal). Rossi e Antonella publicaram recentemente um livro sobre “semi-imortalidade”, algo que o consultório de Antonella estaria “investigando”. As aspas são porque minha impressão é de uma picaretagem da grossa. Mas vamos a uma descrição mais cronológica.

Chegamos, eu e Stefano – meu informante italiano, físico de formação, programador e educador por ofício, e crítico ao evento e movimento que apresentei a ele -, um pouco antes do início, marcado para as 9,30h da manhã. Fomos impedidos de entrar, deveríamos voltar no horário exato para a inscrição e para pegarmos o material do evento, embora a recepção estivesse marcada para as 9h. O evento aconteceu no Museo Internazionale della Scienza e della Tecnologia, em Milão, cidade onde fica o escritório da iLabs. Na entrada, gente que estava lá para o Summit se misturava a crianças esperando para entrar no museu de ciência.

Retornamos e fomos conduzidos à sala do evento. Confesso que eu esperava mais, algo maior e com uma pegada mais tecnológica (robôs etc). Na entrada, uma mesa simples, algumas atendentes distribuindo o material. Mas estava cheio, público eminentemente masculino e na média mais velho do que eu esperava. O salão era comprido e as fileiras da frente estavam todas ocupadas, com o que pareciam convidados. O material distribuído era rico, bem rico. Livros e panfletos caros, mas feitos com simplicidade, com aparência acadêmica. Acompanhava o material – ou foi distribuído no final, não me lembro – uma revista intitulada Monsieur. ao que parece, é uma publicação destinada à alta classe e essa edição continha muitas páginas e a reportagem de capa dedicadas ao evento e aos palestrantes. Rossi e Antonella aparecem em matérias nobres. Minha impressão é que ele bancou a edição da revista. O que deve ter sido caro, pois a revista está no ano 11, ou seja, tem certa história, não deve se vender sempre.

Meu informante deu detalhes sobre Rossi, o organizador. Milionário que ganhou dinheiro com a informática nos anos 80, com trabalhos com tecnologia de reconhecimento de voz – algo irônico, Kurzweil também ganhou dinheiro assim. Na apresentação Rossi falou que o iLabs é totalmente privado, não depende de recursos públicos. Ou seja, é o lugar onde Rossi coloca seu dinheiro.

Depois da apresentação do evento feita por Rossi chega Kurzweil. é sua fala tradicional, muito bem feita, focada principalmente na idéia de aceleração tecnológica e a tal singularidade. Nada demais, é repetição das sua palestras no TED e outras falas públicas. Seguem-se as perguntas, bastante moderadas e gentis, mas não suaves. Alguma discordância é colocada e percebe-se que há muitos acadêmicos de universidades italianas na platéia. Meu palpite: Rossi bancou a ida de todos, com passagens e tal. O evento interessa a ele, Rossi, que busca se afirmar e contratou Kurzweil e de Grey. Kurweil é bastante aplaudido, mais do que eu imaginava.

Então a fala de Rossi. Kurzweil se foi, não ficou para ouvir Rossi. Difícil afirmar porquê (ficaria se fosse pago para isso? foi pago só para dar a palestra? não quer se associar a Rossi?), mas fica uma sensação de que isso não foi delicado.

Rossi. Difícil descrever a quantidade de bobagens dita. Parece algo feito por um amador. Ele pleiteia o homem 2.0, quer criar um sistema jurídico automatizado, com algoritmos ajudando a Justiça. Fala em ética e leis. As falas estão aqui – http://www.singularitysummit.it/liveEN.asp#. Rossi parece um Steve Jobs mediterrâneo – isso significa parecer moderno, sério mas não tradicional. Veste-se todo de preto, é esbelto e bronzeado. Mas sua fala é truncada, ele parece nervoso. Quando começam as perguntas ele é bombardeado, muitas questões duras. Ao que parece, os acadêmicos que tiveram a viagem paga e que, em tese, seriam suaves com Rossi não cumprem sua parte no acordo. Talvez Rossi imaginasse que receberia apoio em suas idéias mas poucos – talvez ninguém – o fazem.

Após as perguntas, almoço. Excelente. Comida boa e farta – vários pratos – para todos. Vinho. E o evento foi gratuito.

Então vem a fala de Antonella. Ela é o par perfeito para Rossi. Sou péssimo para definir idades, mas ela me parece próxima dos 60, só que alguém que se preocupa muito em se conservar. Loira, também bronzeada, tem os cabelos presos e usa decote. Uma dondoca. A fala dela consegue ser mais constrangedora que a de Rossi. A qualidade é pior e ela também está nervosa. Fala de sua clínica e dos tratamentos que faz que buscam a imortalidade (ou semi-imortalidade). Sua formação é em psicologia, mas ela mistura tudo, um discurso ao mesmo tempo meio lombrosiano, meio de auto-ajuda de inspiração oriental. Claro, com muito cientificismo. Ela é realmente bombardeada pela platéia, muita gente parece indignada. À minha frente (estou numa das últimas fileiras), um grupo mostra clara contrariedade. Rola constrangimento.

Em seguida vem de Grey, que logo se manifesta, com educação, em discordância de Antonella. Recusa o termo semi-imortalidade. E fala de sua abordagem, que pretende entender doenças como as cardíacas, o câncer e o Alzheimer como causa de mortes que classifica como naturais (ou seja, derivadas do envelhecimento). A definição da Wikipedia parece bater com a fala que ouvi (De Grey argues that the fundamental knowledge needed to develop effective anti-aging medicine mostly already exists, and that the science is ahead of the funding. He works to identify and promote specific technological approaches to the reversal of various aspects of aging, or as de Grey puts it, “the set of accumulated side effects from metabolism that eventually kills us,”[9] and for the more proactive and urgent approaches to extending the healthy human lifespan. Regarding this issue, de Grey is a supporter of life extension.) O mais interessante é que suas teorias se encaixam com a idéia de progresso tecnológico de Kurzweill, no sentido de que ao estender a vida de alguém, nesse prazo “a mais” que a pessoa ganha novas tecnologias surgirão, e a vida será aumentada progressivamente.

De Grey é questionado pela platéia, mas é hábil nas respostas, foge ou se exime de algumas coisas mas porta-se bem. Por mais que seja questionado, parece ter conhecimento científico do que fala, assim como Kurzweill, por mais que se saiba que são “crackpots”, como classifica meu informante.

Ao final, o auditório está bem menos cheio do que no início, mas não vazio. Muita gente só viu o Kurzweil e/ou foi embora durante a fala da Antonella. Na saída conversamos rapidamente com pessoas que estão intrigadas com a questão, mas ainda assim acham maluquice temperada com profunda falta de noção político-social sobre o mundo como um todo.

Minha impressão: Rossi bancou tudo, investiu pesado. Mas falhou, teve desempenho e mostrou ideias constrangedoras. A clínica, o iLabs, que se propõe a buscar a imortalidade, parece coisa de milionários que não se conformam com a morte. O público de Antonella, se existente (ela diz clinicar, propor terapias), deve ser formado por gente com dinheiro, mas sem muita noção. Imagino socialites do tipo do Grupo Anti-Terrorismo de Babás http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110327/not_imp697782,0.php

Mas… é muito interessante pensar no tipo de gente/ideias/classe que está tentando se associar à singularidade. E isso fora do país matriz, em um país em decadência como a Itália. E o centro não adere com muito vigor a essa associação, aceita o dinheiro mas sabe que esses caras queimam o filme, não estão à altura.

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