Chega de falar de transhumanismo e singularidade (mentira)

Agora que o curso acabou, vou ver se uso este blog para anotações mais genéricas, igualmente elípticas, incompletas, parciais e não confiáveis.

Mas, para encerrar, um txt do Danilo Albergaria, tentando digerir a bibliografia do curso.

Dois lugares-comuns

Singularidade – uma estrela supermassiva morre. Seu campo gravitacional é tão forte que colapsa sobre si mesma. O buraco negro é o fim do espaço-tempo. É, enfim, uma singularidade – onde não há espaço e não há tempo. Não há história.

A Singularidade aponta para a superação da decadência física, da desordem, da desagregação, do apodrecimento. Da queda ao nada. Não seria este o nosso destino trágico, demasiadamente humano, expressado pelos melhores artistas? A vida é som e fúria, e nada mais. A tragédia humana é que cada um de nós está fadado a ser um buraco negro, um ralo cósmico onde escoa a existência. A vida é uma queda ininterrupta ao abismo, rumo ao vazio, a um ponto sem volume, infinitamente denso.

A utopia de Kurzweil é o exato oposto disso. Uma aceleração vertiginosa desde o destino humano original – o nada – para a realização máxima do céu na terra da Ilustração, do sonho de melhorar infinitamente o mundo e o homem.

Como em toda boa história de superação humana, há um preço a pagar. Um lugar-comum contemporâneo diz: vende-se a alma para que se alcance a imortalidade. Zumbis e vampiros vivem para sempre como meros corpos desanimados. Também aqui Kurzweil subverte os tropos. Ele dispõe do corpo para viver com outras almas evisceradas num reino de simulação, and all watched over by machines of loving grace.

As máquinas, há tempos fontes de nossa sobrevivência, são agora o primeiro e eterno motor da utopia tecnológica transumana. A revolução copernicana, início de nossa descentralização cósmica, empalidece com o pós-humanismo que devolve o homem ao centro de tudo. Aristotle shrugged! A Singularidade, século 21, é herdeira do mundo fechado de perfeitas esferas concêntricas separando o etéreo e ordenado mundo supralunar de nossa sublunar, corrupta, instável condição. A diferença é que teríamos aprendido a manejar os quatro elementos mundanos de tal forma que desbloqueamos o segredo do éter. Cada um tem seu próprio Game Genie: continues ilimitados, poderes a granel, liberdade individual plena.

Que atroz fuga da história em que tudo que pode ser vivido de fato o é! Todas as dívidas são pagas, todos os desequilíbrios são equacionados em eternos reboots, infinitas iterações. É o fim dos bugs da contingência histórica.

A fina ironia da Singularidade é que sua legitimidade discursiva situa-se num hiper-historicismo: o tempo é seta, não ciclo. E seus profetas sabem para onde a seta aponta. Ela é a apropriação do revolucionário em nome do imobilismo, do progresso em nome da conservação. Ela vende a superação da natureza pela cultura naturalizando o devir: a Singularidade é inevitável; resistir é lutar contra nosso chamado cósmico – o advento da inteligência e da consciência é o ponto de partida. Este é o nosso destino manifesto. Spooky.

Olhamos para um cosmos extenso demais, misterioso demais, hostil demais para nossas pretensões, e ficamos com medo. E decidimos olhar para nós mesmos em busca de salvação e de transcendência. E é claro que isso é uma tremenda cagada. Assim como o é privarmo-nos dos sonhos por temer os pesadelos: Sapere aude!

Ousar saber. Mas nunca esquecer que somos responsáveis pelo que projetamos.

Tem uma frase do Paul Valéry que encontrei como epígrafe de um livro de Paolo Rossi: “à idolatria do progresso contrapôs-se a da sua maldição: somaram-se assim dois lugares-comuns”.

Um comentário sobre “Chega de falar de transhumanismo e singularidade (mentira)

  1. Vim aqui procurar uma referência e… caraio, que vergonha ler isso depois de todo esse tempo.

    Descobri o segredo dos pós-modernos: não filtrar a auto-indulgência e escrever de uma tacada só, pouco se lixando pro leitor.

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