Tiro pela culatra

(Escrita em 2004. Boto aqui para que não se perca. A Vice publicou hoje sobre a suspensão do programa http://www.vice.com/pt_br/read/o-legado-problematico-do-programa-de-fumigacao-aerea-das-plantaes-de-coca-na-colombia)

Efeito colateral do Plano Colômbia: para driblar as fumigações, plantadores de coca desenvolvem variedade gigante e resistente ao glifosato
Ao que parece, não são só os biológos das universidades que sabem manejar as regras da evolução a seu favor. Traficantes colombianos já desenvolveram novas variedades para suas plantações de coca, que chegam a ser quase três vezes maiores do que os pés tradicionais, com qualidade superior e com maior taxa de alucinógenos. “O que encontramos não foram arbustos, mas árvores”, declarou o coronel Diego Leon Caciedo ao jornal escocês Scotsman. Além de melhores, as novas variedade de coca são resistentes ao glifosato, princípio ativo do herbicida Roundup vendido pela multinacional transgênica Monsanto.

As plantas foram decobertas em uma operação anti-drogas da polícia colombiana nas montanhas de Sierra Nevada, local notório pelas suas plantações de coca e alvo preferencial da fumigações promovidas pelo Plano Colômbia. Especialistas consultados pelo Scotsman estimam terem sido gastos mais de RS$ 315 mi para o desenvolvimento da variedade que, embora resistente ao glifosato, não é transgênica. É uma mistura de variedades potentes, peruanas e outras nativas da própria Colômbia.

Do agente laranja ao glifosato

A resistência ao herbicida não se deve à escolha pelos traficantes do agrotóxico da Monsanto como o defensivo agrícola preferido para as suas plantações. Desde 1999, o bilionário Plano Colômbia, capitaneado pelos Estados Unidos, financia a pulverização com glifosato- entre outras substâncias – de fazendas suspeitas de plantarem coca. A prática não é muito diferente daquela que era usada pelo exército estadunidense no Vietnã, quando espalhava o “agente laranja”, também fornecido pela Monsanto: a nuvem química da fumigação faz terra arrasada ao atingir a cobertura vegetal e mata toda a superfície verde. Há também relatos de danos à saúde de humanos e animais.

O objetivo da fumigação era debilitar economicamente os plantadores de coca e, por consequência, fazer com que os preços do produto no mercado internacional chegassem a níveis bastante altos. Mas não só os preços não caíram como os plantadores estão tornando seu negócio mais eficiente e com maior produtividade. “Nós sabemos que os aviões pulverizadores precisam de uma área alvo de pelo menos três hectares. Então agora temos campos menores e um plantio mais intensivo”, declarou um dos plantadores.

A publicação independente Colombia Journal relata ainda que, na região de Putumayo, outro alvo preferencial das fumigações, a mistura das variedades Peruana, Boliviana, Tingo Pnta Roja e Boliviana Blanca, gerou plantas com ciclos de produção mais curtos, capazes de crescer entre as fumigações. “Houve uma há menos de seis meses”, declarou um produtor. Segundo ele, a variedade que trouxe a resistência ao glifosato foi a Boliviana Blanca.

No Brasil: não pode… mas pode

Pulverizado nas plantações da Colômbia, o glifosato tem mercado crescente no Brasil, embora seu uso nas plantações tenha uma regulamentação confusa. De acordo com o Ministério da Agricultura, a substância não pode ser usada como pós-emergente (borrifado diretamente nas folhas) para as plantações de soja transgênicas. Ele só pode ser usado como pré-emergente, ou seja, antes que a soja cresça. No entanto, o sistema de informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) indica o Roundup para uso pós-emergente na soja, entre outras culturas como café, ameixa, arroz, banana, cacau, cana-de-açúcar, maçã, milho, nectarina e outros.

Além de receber os royalties das plantações piratas de transgênicos no Brasil, a Monsanto espera ganhar muito também com o Roundup. Em três anos, a empresa investirá US$ 40 milhões para ampliar sua produção de glifosato no Brasil. A brasileira Nortox, por sua vez, investirá US$ 10 milhões na produção do herbicida, num investimento total que, somado ao das fornecedoras – dela e da Monsanto – deve chegar a US$ 72 milhões.

O uso desse herbicida, no Brasil, tem fiscalização débil – do contrário, não haveria vantagem alguma para o produtor da soja transgênica. Mas internacionalmente crescem as suspeitas de que a substância esteja relacionada a malefícios à saúde como o câncer. A Anvisa classifica o produto como pouco tóxico (o menor de quatro níveis) e pouco perigoso (o segundo menor de quatro níveis) ao meio ambiente.

 

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