Seminar VII Surveillance capitalism in the Global South with Rafael Evangelista & Lucas Melgaço

This is the recording of the seventh seminar in our surveillance studies seminar series on ‘Surveillance capitalism in the Global South: at the intersection of platform interests and far-right disinformation campaigns’ with Rafael Evangelista, chaired by Lucas De Melo Melgaço. It took place December 1st, 2021 at 2PM (Brussels Time) through MS Teams.

In the 2018 Brazilian presidential elections, social networks and instant messengers played a key role both in the mobilization of voters and the spread of disinformation. As global surveillance capitalism platforms, these networks demand an integrated comprehension of its global operations. Through partnerships with local actors its tools and services also impact local contexts.

Using a Global South research perspective to discuss the spread of political disinformation in Brazil, this seminar explores how the country’s far-right was able to set up and/or control several WhatsApp and Telegram open chat groups. Functioning as hub for audience, page views and engagement with disinformation media content, the producers were then able to monetize their content on platforms like YouTube or GoogleAds embedded in web pages. In this seminar, we show how the interests of platforms, far-right leaders and low-budget media producers may intersect.

Ao mirar na superfície, PL das Fake News falha no combate às estruturas de desinformação

Nas próximas semanas, a Câmara deve fazer sua apreciação do Projeto de Lei 2630/20, mais conhecido o PL das Fake News, mas que tem o nome oficial pomposo de Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. O texto apresentado originalmente no Senado Federal foi bastante modificado e, entre idas e vindas, entre pareceres do relator e emendas, flertou-se consistentemente com um texto horrível, que acabou sendo bastante melhorado depois de uma saraivada de críticas de especialistas e da sociedade civil. Ainda assim o texto tem muitos problemas, como o rastreamento em massa de mensagens — que certamente não vai ser eficaz em debelar o que busca combater (vide https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/07/regra-para-armazenar-cadeia-de-mensagens-do-whatsapp-pode-ser-ineficaz-em-projeto-de-fake-news-no-congresso.shtml) –, entre outros atalhos que o PL está oferecendo a juízes autoritários.

Mas não vou me deter nesses problemas aqui. Gente mais competente já está fazendo isso. Quero fazer uma análise mais de fundo, explorando o que se esconde por trás de expressões como “Responsabilidade e Transparência na Internet”, que faz parte do título do PL, e os motivos e equívocos que tem levado parte da esquerda a aderir mesmo às piores versões desse projeto, sem fazer um debate consistente e mais detido com seus interlocutores tradicionais.

De cara aponto que pode até ser que saia dessa discussão uma lei palatável, que tenha pontos positivos, em especial ao demandar obrigações de transparência das plataformas de redes sociais, mas com certeza não teremos uma lei nem perto da ideal, que leve em consideração as raízes do problema da desinformação no Brasil e a conta das plataformas no agravamento desse problema.

É um projeto de ocasião, feito na ressaca das eleições de 2018 e inspirado por depoimentos espalhafatosos dados na CPMI das Fake News. Essas determinantes, ainda que legítimas, não formaram uma visão estruturada e de médio prazo sobre como enfrentar a disseminação da desinformação nas plataformas e, por consequência, sobre como regular as plataformas. Embora o PL institua medidas que vão afetar um conjunto complexo de aplicações e serviços na Internet, que estão em constante mudança e que devem se transformar ainda mais nos próximos anos, o texto foi redigido tendo uns poucos aplicativos em mente: WhatsApp e Facebook, pra citar os mais importantes.

Vale dar uma olhada no artigo 4o, que fala sobre os objetivos do projeto (estou usando aqui a versão que saiu do Senado para a Câmara). O primeiro parágrafo diz, textualmente, que a lei busca “o fortalecimento do processo democrático por meio do combate ao comportamento inautêntico e às redes de distribuição artificial de conteúdo e do fomento ao acesso à diversidade de informações na internet no Brasil”. Vamos esquecer a segunda parte da frase, já que não há muito no resto do texto sobre apoio direto a novos canais de informação. Trata-se ali de apontar que a democracia estaria ameaçada por dois fatores: “comportamento inautêntico” e “redes de distribuição artificial de conteúdo”. É o que está na cabeça dos legisladores, o que eles estão tateando como sendo o problema.

Pistas sobre o que está por trás dessas duas expressões, e de outras, estão no artigo seguinte, o 5o. Quanto às “redes de distribuição artificial”, elas estão conceituadas especificamente como “comportamento coordenado e articulado por intermédio de contas automatizadas ou por tecnologia não fornecida ou autorizada pelo provedor de aplicação de internet (…) com o fim de impactar de forma artificial a distribuição de conteúdos”. Já a definição sobre “comportamento inautêntico” não está lá, na verdade a expressão nem aparece mais ao longo do texto. O que temos é a conceituação sobre “conta inautêntica” e “conta automatizada”. A primeira é definida como “conta criada ou usada com o propósito de assumir ou simular identidade de terceiros para enganar o público” e a segunda como “conta preponderantemente gerida por qualquer programa de computador ou tecnologia para simular ou substituir atividades humanas na distribuição de conteúdo em provedores de redes sociais e de serviços de mensageria privada”.

Essas definições nos mostram um quadro do que se está entendendo como pernicioso no jogo democrático. E as imperfeições nesse diagnóstico. Os parlamentares estão mirando na superfície e não nos mecanismos. Estão atacando o que veem, ou o que a mídia escreve sobre, o robô, o fake. Assistiram Black Mirror demais.

Atacar o comportamento coordenado e articulado que performa a “rede de distribuição artificial”, por outro lado, é algo perfeitamente justo. O maior fator de desinformação em grupos de WhatsApp não é a sua tia que repassa cura milagrosa com plantas para o Covid. O problema está no batalhão de bolsonaristas que se de maneira oculta se coordenam no espalhamento de memes e vídeos – monetizados no YouTube –, os quais anunciam um plano mirabolante chinês contra o Ocidente e o complô da indústria farmacêutica contra a cloroquina. São eles que tomam de assalto os serviços de mensageria e espalham desinformação em massa com fins políticos e econômicos. É uma rede sócio-técnica, em que a ênfase deveria ser colocada nas condicionantes sociais (ou sócio-econômicas). O problema é que essa coordenação oculta, embora seja imoral e desonesta com outros membros do mesmo grupo de discussão, dificilmente pode ser tipificada como crime sem ferir um conjunto complexo de direitos políticos (sobre a coordenação oculta nos grupos de WhatsApp escrevi sobre em https://policyreview.info/articles/analysis/whatsapp-and-political-instability-brazil-targeted-messages-and-political)

O parágrafo 5o então, para tentar atingir a coordenação, apela para duas instâncias técnicas que articulariam a rede de distribuição artificial: conta automatizada e uma tal tecnologia não autorizada. Ou seja, robôs. Só que essas redes de desinformação, embora contem com auxílios técnicos, não são feitas por robôs. São operadas por humanos, que passam o dia, como bons cabos eleitorais, alimentando infinitamente as redes. Podem até não usar o nome verdadeiro para identificarem-se mas, no limite, isso é um detalhe, já que nesses grandes grupos de WhatsApp todo nome é uma ficção, pois quase ninguém se conhece. Muitos dos números utilizados, inclusive, nem são brasileiros.

Seria o caso então de atacar a conta inautêntica, que é definida no artigo 5o para nunca mais ser citada ao longo do projeto. Só que sua tipificação é igualmente traiçoeira, pois se fala em simular ou assumir a identidade de terceiros. Ora, estamos falando em roubo de identidade? Em uso de imagem alheia para ilustrar perfil? Bem, há relatos de que muitos dos avatares que hoje se distribuem pela Internet não são nem imagens de pessoais reais, mas criações produzidas por softwares de inteligência artificial. Trata-se de criminalizar isso? De novo, não é aí que está o problema.

O que se depreende do texto é que ele projeta um usuário ideal das redes sociais e tenta torná-lo obrigatório por lei. Este seria um sujeito “real”, dono de uma conta “autêntica”, com seu próprio nome no perfil (sem apelidos, por favor), com uma foto sem retoques (esqueça o Photoshop naquelas suas olheiras) e que só fale a Verdade, com v maiúsculo, sem ironias, indiretas ou dúvidas. Não é à toa que em uma das versões da lei se falava em contas verificadas pelas plataformas, com CPF e número de celular cadastrado. A transparência que a lei busca com esses objetivos e definições que listei não é a das práticas das plataformas, que comandam o show com seus algoritmos. É a do usuário, que vai sendo escrutinado por um sistema vigilância em massa e intensiva.

Mas então, o que se pode fazer?

O PL, em sua redação atual, passou a trazer alguns avanços importantes no sentido de cobrar mais transparência das plataformas. Isso foi uma consequência direta e positiva da reação de especialistas frente ao texto original. Nos parágrafos III e IV do artigo 4o, o que contém os objetivos do PL, estão pontos relevantes como “a busca por maior transparência das práticas de moderação de conteúdos postados por terceiros em redes sociais” e a “adoção de mecanismos e ferramentas de informação sobre conteúdos impulsionados e publicitários disponibilizados para o usuário”. São metas importantes para municiar os cidadãos e a sociedade de meios para entender e confrontar melhor a distribuição de conteúdos nas redes sociais.

Mas a definição de impulsionamento, implicada em um dos objetivos, peca por somente olhar um lado do processo. Lê-se, no mesmo artigo 5o, que impulsionamento é a “ampliação do alcance de conteúdos mediante pagamento pecuniário ou valor estimável em dinheiro para as empresas”. Essa é uma definição parcial que acaba por acobertar o impulsionamento mais pernicioso, o algorítmico.

Há tempos sabemos que o que recebemos em nossos feeds, em nossas timelines, linhas do tempo nas redes sociais não corresponde exatamente a todos os conteúdos postados por todas as pessoas que seguimos nesses meios. As plataformas, buscando aumentar o nosso tempo preso na tela e o engajamento produtivo (as respostas furiosas que damos a cada absurdo que lemos), editam a exposição desses conteúdos de modo estratégico. Às vezes insistem em nos mostrar o que já dissemos que não queremos ver, mas também apelam para os nossos instintos mais primitivos ao nos sugerirem conteúdos relacionados que roubam nossa atenção. Incentivam o vício de auto-exposição nas redes, distribuindo mais fortemente os conteúdos daqueles que mais publicam, e que ganham coraçõeszinhos e estrelinhas em retribuição. Já foi provado o papel do mecanismo de sugestão de vídeos do YouTube na formação de extremistas políticos.

Em outro momento, criticando versões anteriores do mesmo PL, falei sobre o ecossistema de desinformação política no WhatsApp (https://nocaute.blog.br/2020/06/01/pl-das-fake-news-e-emenda-pior-que-o-soneto/). É uma estrutura complexa, que mistura produtores de desinformação, que se adéquam ideologicamente à extrema direita, que por sua vez domina uma rede de distribuição de links e conteúdos cuja visualização é recompensada pelas plataformas.

A chave não é o impulsionamento pago, o anúncio que alguém paga para ser distribuído. É claro, quanto mais informação sobre isso melhor, e o PL avança nesse sentido. Mas o impulsionamento também é feito pelas plataformas, que pegam um conteúdo cujo primeiro impulso foi dado pela rede oculta coordenada e o empurram a muitos mais usuários. Pagam ainda uma recompensa por isso ao produtor, a tal monetização. Essa “escolha” das plataformas é, até o que se sabe, politicamente agnóstica, ou seja, tanto faz a qualidade estética ou política do conteúdo, o que ela quer é visualização e engajamento.

Pensar a desinformação no Brasil requer levar em conta, em primeiro lugar, o quanto a atualidade reflete uma herança histórica de um sistema geral de informação profundamente concentrado e elitista. A partir daí, demanda pensar a internet a médio e longo prazo, buscando fiscalizar e controlar as plataformas, que tomaram de assalto a internet livre. O caminho não é o punitivismo que busca “purificar” a rede projetando um usuário autêntico ideal, um humano “real” claramente distinto dos robôs vilões. As plataformas nos instrumentam como pontos de uma rede cibernética, buscando produzir desejos de consumo, sequestrar nossa atenção e explorar nosso trabalho de produção midiática. O que uma boa lei pode fazer é ajudar a desvendar esses mecanismos e a combater os estímulos que nos desumanizam. Vamos torcer para que a Câmara não piore o texto atual, o que pode fazer se resolver se aventurar por tipificações criminais semelhantes às do finado PL Azeredo, que não por acaso foi apelidado de AI-5 digital.

PL das Fake News é emenda pior que o soneto

Com um apelido de apelo e aparentemente nascido de boas intenções, o PL das Fake News surgiu de supetão no debate público. Foi acelerado por um contexto institucional de aguardada, embora tardia, pressão contra grupos que se organizaram para tomar de assalto a política fazendo da desinformação uma de suas principais armas. Seja pelas circunstâncias, seja pelo seu nome sexy, o PL 2630/2020 ganhou impensada adesão dos afoitos. Afinal, quem poderia ser contra um projeto que combate as Fake News?

Mas o PL é ruim, e tende a piorar o problema da desinformação com uma falsa solução. Corre o risco de dar razão justamente a quem não deveria, os atores do ecossistema das notícias falsas, que se apoiam cinicamente sobre o argumento da liberdade de expressão para dar continuidade a seus propósitos escusos. Por suas falhas, e por ter sido feito sem ouvir devidamente a sociedade e os estudiosos do tema, o PL exacerba o poder das plataformas, dando a elas responsabilidades que não lhes cabem, como dizer o que é falso ou verdadeiro; e ataca práticas legítimas, como os perfis anônimos e as contas de paródia. Uma votação apressada, de um projeto que ainda nem se conhece a redação final, pode ser desastrosa.

Sob a premissa de combater a desinformação e com um método de ação pertinente (regular as plataformas), o PL peca porque ataca o instrumento, o que é contingente, e não a engrenagem do problema que sustenta o ecossistema espúrio: a monetização. Regulação das plataformas é o que diversos estudiosos vêm pedindo há tempos, desde que essas empresas extrapolaram seu papel de simples intermediadores de mensagens para, buscando aumentar sua audiência, promover engajamento e reter a nossa atenção o máximo de tempo possível, se tornarem verdadeiras empresas de mídia. Mas parece que autores do projeto prestaram atenção só no alvo apontado e não na descrição de como as plataformas bagunçaram completamente a dieta informacional mundial.

Falemos, como exemplo, de nosso caso doméstico, o ecossistema de desinformação que deságua no WhatsApp da família brasileira. Ele tem alguns atores fundamentais. As plataformas (WhatsApp, YouTube, Facebook, Instagram), que buscam conteúdo que gere audiência, engajamento e dados/meta-dados, estes últimos a serem vendidos no mercado publicitário e para formuladores do marketing. Os espalhadores políticos, que controlam redes de perfis e grupos de discussão e se organizam para espalharem a desinformação que lhes interessa. Os produtores, que podem ter vínculos diretos e profissionais ou não com os espalhadores. E a mídia tradicional, que é politicamente diversa e faz o trabalho de base de levantamento do que pode vir a ser considerado factual.

As plataformas oferecem o incentivo básico aos produtores. Um estímulo que vale para todos, sejam os produtores de fake news ou de real news. Elas impulsionam, por meio de seus algoritmos, aquilo que é produzido, buscando engajamento e audiência. Selecionam o que vemos nos nossos feeds a partir do que imaginam que vai nos interessar mais. E recompensam os produtores de acordo com essas visualizações. Assim, incentivam financeiramente uma produção que gere audiência e engajamento.

Os espalhadores políticos não tem uma agenda econômica num primeiro momento. Não pela comercialização das fake news. O que eles querem é impulsionar certas ideias e narrativas que tragam legitimidade aos políticos a que servem. Eles controlam uma rede de perfis e grupos de discussão que são muito populares e capazes de pegar um conteúdo, ainda que feito amadoristicamente, e catapultá-lo a uma audiência de centenas de milhares de pessoas. Os espalhadores sabem usar tecnicamente o WhatsApp, o Facebook e o YouTube.

Os produtores podem uma afinidade política leve ou forte com os espalhadores políticos, mas esse laço é reforçado pelo sucesso conseguido. Eles buscam trechos de conteúdos veiculados pelos próprios políticos ou pela imprensa e adicionam o seu, que em geral é um comentário adicional ou uma edição do que foi encontrado. Colocam o resultado final nas plataformas e semeiam minimamente para os espalhadores políticos, que fazem o resto do trabalho se o produto se adequar ideologicamente aos propósitos. Aqui ninguém tem um compromisso muito forte com os fatos. A mídia tradicional, que também erra e produz suas distorções partidarizadas – afinal não está livre da guerra da audiência ou das influências políticas – entra com esses pedaços de conteúdo tomados à revelia. Acaba dando um verniz de verdade ao falso.

Os produtores foram o principal alvo da bem-sucedida estratégia da Sleeping Giants Brasil. O grupo ativista buscou atacar o elo entre anunciantes que fazem propaganda automatizada usando o Google AdSense, por exemplo, e produtores maliciosos. Denunciadas, envergonhadas publicamente, as marcas passaram a cuidar melhor da seleção de quais sites são o destino de seus anúncios.

Mas o que isso tudo nos ensina para um bom PL que ataque as Fake News e permita a liberdade de expressão na internet, sem aumentar o poder já gigantesco das plataformas? Ele precisa atacar os estímulos econômicos que fazem rodar a engrenagem da desinformação e do sensacionalismo. Produtores de conteúdos tem enxergado na máquina de impulsionamento dos espalhadores políticos e na monetização do sensacionalismo que as plataformas oferecem uma oportunidade. As plataformas precisam desmonetizar canais que são notórios veiculadores de notícias falsas e parar de impulsionar automaticamente esse tipo de conteúdo. Não é nada difícil mapear essa produção — que é obviamente maliciosa – e este é um trabalho que pode ser feito por agências independentes. Obviamente a eficácia não será de 100%, é um jogo de gato e rato, mas o efeito será suficiente. E as agências independentes precisam ser, elas também, objeto de escrutínio público.

Sim, também é preciso atacar os espalhadores políticos. Pesquisas sobre as eleições de 2018 já descortinaram como eles atuam e com um pouco de boa vontade dos órgãos fiscalizadores é possível atacar quando eles cruzam o limite do que é legal. Os espalhadores usam de robôs e automatização, mas isso é só uma parte pequena da história. Boa parte da mão-de-obra que espalha é contratada, direta ou indiretamente. Trata-se de algo muito mais do trabalho precarizado do que tecnológico. Cabe desmistificar a ação onipresente de sistemas automatizados e olhar para a realidade brasileira da informalidade e do compadrio político.

Diversas entidades já se posicionaram contrariamente ao PL 2630/2020, alertam para os principais problemas e propõem alternativas viáveis. Vale ver a manifestação da Coalizão Direitos na Rede (https://direitosnarede.org.br/2020/05/29/combater-desinformacao-assegurando-liberdade-de-expressao-e-privacidade.html) que reconhece que uma análise do que é desinformação precisa de “análise humana, contextualizada, embasada em pesquisas e fontes diversas”. E que “mesmo após uma análise minuciosa, resta um espaço amplo para variáveis de interpretação dos fatos”. Igualmente, os analistas do InternetLab apontam “existir demanda por informação que sirva como arma para o combate político” e que “há estudos mostrando que as redes sociais têm um papel nisso quando calibram, nos algoritmos, quais conteúdos serão mostrados para buscar nossa atenção” (https://www.internetlab.org.br/pt/imprensa/leis-para-desinformacao-exigem-mais-do-que-boas-intencoes/).

Se seguirmos na toada do PL das Fake News, vamos acaber tendo um conjunto de leis autoritárias para internet, parecidas com o AI-5 Digital. Corremos o risco hoje de ver ressuscitadas propostas criminalizadoras na web. A reação ao AI-5 Digital foi um fator de peso para a aprovação do elogiado Marco Civil da Internet, que muito corretamente busca impedir que as plataformas atuem como censores numa rede que deve ser livre. Retirar estímulos econômicos deturpados não é impedir a livre expressão. Uma lei consistente para combater a desinformação necessita ter nos princípios do Marco Civil o seu alicerce. A partir dele, precisa se construir com elementos trazidos de uma análise sólida e detida desse novo cardápio informacional que as redes sociais nos trouxeram.

Rafael Evangelista é antropólogo, professor pesquisador no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e membro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (lavits.org). Conselheiro eleito do Comitê Gestor da Internet, representante do setor técnico-científico.

Descobri agora que no dia 2 de abril o Bolsonaro soltou essa frase:

“Eu desconheço qualquer hospital que esteja lotado. Desconheço. Muito pelo contrário. Tem um hospital no Rio de Janeiro, um tal de Gazolla [Hospital Municipal Ronaldo Gazolla], que, se não me engano, tem 200 leitos. Só tem 12 ocupados até agora”

A fonte? Um áudio de WhatsApp. No dia 28 de março recebi o audio que colo logo abaixo, vindo de um dos grupos que monitoro.

É oficial, pode cravar, a mesma mão que alimenta a desinformação da população é a que desorienta a cabeça do presidente.

https://voca.ro/2NdzHNvZ6Q6

 

Dei essa entrevista para a Mariana Hafiz, a respeito da perseguição a jornalistas científicas em tempos de COVID19. Foi bacana, acho que caíram umas fichas pra mim. A matéria está aqui https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/04/15/divulgadores-de-ciencia-sao-atacados-por-hackers-e-recebem-ofensas-apos-alertas Acabaram usando só uma frase, mas as perguntas foram interessantes.

1. divulgadores científicos tem sido alvo de vários e fortes ataques na internet ao alertarem sobre os riscos do coronavírus e defenderem quarentena, recebendo desde xingamentos a hackeamentos e investigação da vida pessoal. O que pode estar por trás desses ataques? podemos, por exemplo, traçar um paralelo com negacionismo?

Sim, com o negacionismo climático, que já era um assunto mais político, por envolver políticas públicas. Alguns setores passam a promover controvérsia (onde não há) porque desejam obstaculizar certas medidas e mudanças necessárias, que são contrárias a seus interesses. E esses setores, em especial esses novos conservadores neofascistas, atuam numa “língua” e num padrão de comportamento, promovendo conflito, que é diferente das controvérsias costumeiras do meio científico. Eu diria que é mais do que um paralelo, o grau de intersecção entre os negacionistas climáticos e os negacionistas do corona é enorme. Historicamente, esses grupos radicais, que normalmente vivem na margem, ganham força justamente no momento em emerge uma parceria com os grandes negócios. É a indústria do combustível fóssil, por exemplo, patrocinando negacionistas climáticos que, aos olhos dos neofascistas, aparecem como adversários de políticas internacionais de caráter global. No nosso micro-cosmo brasileiro acontece o mesmo: setores conservadores impulsionaram movimentos neofascistas em aliança com os interesses do mercado. Com força política, esses neofascistas vão agir como neofascistas, ou seja, vão entrar no debate público tratando o adversário político como alguém a ser, no limite, fisicamente eliminado. Quando a DC, cumprindo a sua missão social, fala de assuntos com implicações políticas, é inevitavelmente pega nesse furacão. Mas esse é um papel do qual ela não pode se esquivar se quer ter relevância pra sociedade.

2. em um artigo seu para a ComCiência você argumenta que má informação não é acidente, na verdade ela é um subproduto que alimenta as forças das plataformas da nossa sociedade interconectada. você acha que ataques como esse são formas desse subproduto se manifestar? como esses dois contextos se dialogam?

O ódio, a briga, é uma emoção e uma expressão extrema e espetacular, que atrai interesse, assim como a tragédia. O mesmo vale para a informação produzida por atores cujo único compromisso é o de curto prazo com o clique que vai conseguir. A lógica de funcionamento das plataformas é a da atração do usuário e da sua atenção. Alguém perseguindo alguém ou fazendo denúncias fantasiosas de uma grande conspiração internacional é algo que gera cliques e olhares focados. Alguns atores políticos entenderam isso, perceberam que já se adequava à maneira como agem, e exploram isso. Quando digo que isso não é um acidente estou apontando que essa energia do ódio é um dos elementos de espetáculo que são instrumentalizados nessa disputa pela atenção que move a competição entre as plataformas. Não é um problema de uma plataforma específica, é um problema da indústria.

3. as redes sociais são os principais locais onde ocorrem estes ataques, mas alguns cientistas afirmaram denunciar o conteúdo ou os perfis de atacantes muitas vezes sem retorno. Você acha as plataformas do Twitter, Facebook e Instagram estão preparadas para lidar legalmente com essa situação?

Existe um debate muito difícil sobre se as plataformas devem ter autonomia para derrubarem conteúdos que julguem impróprios. Por um lado, isso pode ser visto como um ataque à liberdade de expressão, e esse é um argumento muito pertinente, já vimos isso acontecer. Mesmo denúncias a perfis ou a conteúdos impróprios podem ser extremamente controversas. Quem vai julgar isso, o Zuckerberg?

Por outro lado, e acho que esse argumento é muito significativo, quando as plataformas passam a algoritmizar a entrega de conteúdo, ou seja, quando o Twitter ou o Facebook passam a fazer uma seleção automática dos conteúdos que eles julgam que vai “interessar” mais a um usuário específico (atrair mais engajamento e minutos de atenção), eles deixam de ser intermediários neutros e passam a ser parceiros promotores dos usuários que produziram o conteúdo controverso.

A questão não é tanto se as plataformas estão preparadas. Recursos elas tem, quase infinitos, são altamente valorizadas no mercado e relativamente não pagam quase nada de impostos.

4. O que mais pode ser feito para conter essa onda de ódio?

Quando a mídia broadcast surgiu, lá no início do século XX, houve um esforço regulatório importante, fruto de conflitos políticos e de debate na sociedade, que estabeleceu regras tendo em vista a idealização de um debate público racional. Em alguns países, em especial os europeus, essas regras foram muito bem desenhadas e aplicadas, e são países que em geral tem as melhores políticas públicas. Outros, como EUA, até construíram regras importantes de regulação do mercado de mídia, porém essas normas foram gradualmente sendo abandonada por pressão de grandes grupos econômicos. Veja, o mundo já viveu uma onda fascista e medidas de regulação de mídia foram tomadas também em reação a isso. Hoje, as plataformas de mídia social cumprem o papel de redes de entrega de conteúdo, agora personalizado, ao usuário. As nossas ações precisam se inspirar nas experiências exitosas do passado.

A rigor, ninguém tem ideia do que vai acontecer daqui pra frente depois da emergência do Covid-19. Mas parece que estamos numa encruzilhada, que se abre para três caminhos em disputa: a exceção, a ruptura e a aceleração.

A exceção busca afirmar que tudo vai voltar a ser como antes assim que o vírus passar, que a normalidade não é só o que desejamos que aconteça como de fato será materialmente possível esse retorno. Então bastariam medidas excepcionais para aliviar a dor e as agruras momentâneas (dos negócios, em especial) e determinar um ponto de saída (como disse o Mandetta). É um misto de estado de negação com forçação de barra, e é a posição do Guedes e dos palhaços em comando.

Fazer deste momento uma ruptura é o que alguns de nós estão tentando, ainda que de uma maneira atabalhoada e desorganizada. A crise do vírus, para além de tudo, seria um sinal ou um efeito de uma ordem que já insustentável por si só e só vamos sair dessa criando estruturas outras, apropriadas para a crise mas que devem e deveriam se tornar permanentes, pois são mais justas, ecológicas e sadias. É a luta contra o 1%, pela redistribuição das riquezas e em parte (porque não devemos ignorar sua apropriação e eventual desvirtuamento) por coisas como a renda básica universal.

A aceleração parece ser a aposta do Vale do Silício (mas talvez também da China, ainda que talvez por outro caminho ou outras ênfases). A crise seria uma oportunidade para por em marcha mais acelerada processos que já se anunciavam, já eram objeto de desejo desses e plano desses atores, mas que ainda estavam em fase de consolidação. Coisas como a educação a distância movida a capitalismo de vigilância ou o home office que aprofunda a exploração do tempo do trabalho e transfere custos fixos de estrutura ao trabalhador (aluguel, luz, internet etc)

A emergência e as urgências do momento criam esse ambiente em que testes das novas estruturas acontecem tendo o mundo como laboratório. Sempre esteve no discurso desse último grupo o estado de exceção permanente, mas antes era restrito a lugares ou sujeitos excepcionais, como o Sul, a extrema pobreza ou o terrorismo. O argumento deles será não só pela impossibilidade da volta ao “normal” como pela insuficiência disso.

É claro que esses grupos não são estanques e contém intersecções, eles são divisões tipificadas para navegarmos melhor pelo momento. Por exemplo, tanto os que advogam que este é um momento de exceção como os que buscam a aceleração entendem que o momento é excepcional, mas só o primeiro tem no horizonte uma volta à “normalidade”, seja por entender que isso será possível ou porque se sentem inseguros com o que vem por aí. Home Office e tecnologias aplicadas à educação podem ser coisas importantes para uma ruptura contra a velha ordem do 1% mas é preciso ter claro que, a depender de como forem adotados, podem significar uma piora distópica das atuais condições, apontando para muito mais controle. A renda básica, igualmente, pode ser ferramenta de distribuição de riquezas tanto quanto de expansão definitiva do mercado na saúde, educação, segurança etc.

A China definitivamente luta pela aceleração, mas seu modelo, ainda que usando fortemente de tecnologias de controle cibernético, a princípio significa um rompimento com as estruturas globais dominantes. Exemplar disso é o quanto suas ferramentas são atacadas pela mídia mais alinhada ao Vale do Silício: às vezes corretamente, às vezes com extrapolações e exageros flagrantes que nunca são aplicados aos seus similares ocidentais. A questão é a que cenário global leva a ruptura chinesa, o que também parece estar em disputa.

As peças estão se movendo rapidamente e a ideia de que este é só um momento passageiro de exceção parece se enfraquecer dia a dia. O que vai resultar nisso tudo tende a vir justamente do que vai ser negociado e imposto pelos atores que se ligam aos três cenários, confrontados com a materialidade do isolamento e das mortes causadas pelo vírus. Os patrões de todo o mundo demandam a ação das massas agora semi-confinadas, quase numa greve involuntária em que o único trabalho possível é o mediado por plataformas. Como sempre ele se mostra chave.

Não nos querem Palmeiras

(Nada a ver com trabalho acadêmico. Escrevi esse texto em 2014, ano do centenário, quando parecia que o Palmeiras ia cair de novo. Por dessas razões da internet, o texto não está mais no ar. Fica aqui, para registro — ou quem sabe como projeto.)

Uns dizem que o terceiro rebaixamento foi a gota d’agua. Outros atribuem à solidariedade criada via internet entre palmeirenses de diversas classes e origens, que nunca estiveram tão próximos, embora geograficamente distantes. Fato que aquele centenário foi o início de uma nova era, uma nova arrancada heróica, simbolizada pelos milhares que tomaram as ruas na madrugada do 26 de agosto de 2014.

A dívida gigantesca e o intricado sistema político, que impedia qualquer solução racional, facilitaram as coisas. Uma das principais reivindicações, há anos, era a separação entre futebol e clube social. A figura do sócio-torcedor, levando a eleições diretas, tinha sido imaginada para permitir isso, participação no futebol. Só que aqueles que viviam do clube perceberam que isso poderia elevar receitas e logo o sócio virou mero contribuinte.

De súbito, todos perceberam que não precisavam mais aguentar tudo aquilo. Que o Palmeiras não era um prédio, um endereço, um patrimônio financeiro, era o seu torcedor. O símbolo já vinha sendo desfigurado há algum tempo, em camisas de diversas cores, para encher o caixa e agradar vendedores de material esportivo. Nem o nome corretamente grafado era mais necessário. “Não nos querem Palestra, pois seremos Palmeiras”, foi o anotado naquela ata de 1942. Pois seriam Parmera, como o time já era carinhosamente chamado por aí. Simples, acessível, democrático também na linguagem. Renasceriam para serem justos.

Pensaram então: o Palmeiras somos nós, torcedores, nosso amor, nossa força, nossas memórias, nosso sofrimento, nossa história. Não precisamos desses chupins, desses conselheiros, desses vitálicios, que dizem ser deles o Palmeiras como se o time fosse algum tipo de herança biológica ancestral, mas que o maltratam como se fosse um filho bastardo e renegado, tornado impuro justamente por ter ganho o Brasil. Esse pai perturbado, que mais parece um velho e decadente senhor de engenho, não pode determinar nosso futuro.

A separação entre futebol e clube veio à revelia, como tinha que ser. Pegaram suas badeiras, seus cânticos, seu amor e foram. E a Casa Grande ficou vazia. O velho emblema estava lá, as cotas de TV também, o espaço na mídia. Mas não havia mais torcedores, só um melancólico estádio esvaziado. Sem a força apaixonada, aquela queda foi a definitiva. O velho Palmeiras ficou por um tempo lá e gradualmente foi caindo mais.

Já o Parmera começou de baixo, renovado. Nada foi fácil, a influência do velho pai continuava presente nos primeiros anos e foi impiedosa, raivosa. A democracia também foi turbulenta, difícil, como todo processo bem feito. Mas a torcida, que já era imensa, foi crescendo ainda mais. Inclusivo, o Parmera logo era o segundo time de todos e todos eram bem-vindos. Os párias de todo tipo foram acolhidos com especial carinho, todos éramos assim, impuros. Isso foi usado de maneira muito inteligente e a ascenção então começou. Os que elegeram o Parmera como segundo time tiveram filhos e estes não tiveram vergonha de adotar o Parmera, e tudo o que ele simbolizava, em primeiro lugar.

O momento mais bonito aconteceu quando Parmera e Palmeiras se encontraram na série C. Foram dois jogos mágicos, fraternos. O velho pai, praticamente em seu leito de morte, pode rever a cria e logo reconheceu seu próprio semblante. Ele também foi assim, rebelde, resistente, e soube vencer e ganhar o respeito e a admiração de todos. Mudou de nome em 1942 e venceu pelo Brasil em 1951, foi rejeitado e celebrado.

Quando o Palmeiras caiu para a Série D, no ano seguinte, percebeu-se que era hora de fechar os olhos. A bela casa de show na Turiassu foi transferida para o Parmera, que ajudou a resolver o precesso de insolvência. Anos depois, os títulos antigos seriam reconhecidos. Voltaram a ser a maior força do futebol nacional, ainda que naquele momento isso tenha se tornado quase irrelevante aos apaixonados parmerenses.

A comemoração da chegada, ou retorno, à Série A, aconteceu em um amistoso contra o time alemão St. Pauli. Os velhos palmeirenses, agora reintegrados como torcedores ao Parmera, até tentaram pressionar por algum amistoso com a Fiorentina ou a Juventus. Mas o conselho democrático bateu o pé, o momento tinha que ser um apontamento para o futuro, não uma volta ao passado. Queriam celebrar o time que foi pioneiro na adoção de valores antifascistas, não importava qual divisão jogasse. A herança italiana era só um dos belos capítulos de uma história parmerense que não se esgotava aí. Enfraquecidos, os velhos mal foram ouvidos e logo se satisfizeram ao verem que também haveria homenagens ao amado Palestra de todos. Que também era o Parmera, afinal.

Tem bastante gente usando e citando esse texto: Data colonialism: rethinking big data’s relation to the contemporary subject, de nick couldry and ulises a. mejias.

Segue uma decupagem comentada (comentários meus sempre entre aspas, tudo sem revisão). Fiquei bem decepcionado. Tem algumas sacadas, mas é muita ginástica teórica para contribuir pouco, só atrapalhar, porque usa do conceito de colonialismo e de citações descoloniais, mas retira totalmente da análise as relações norte-sul. Ironicamente é um texto colonialista DEMAIS. Mas vale ler para criticar pesado essas neutralizações de categorias que precisam se manter fortes para continuarem politicamente úteis.

Link para o original: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1527476418796632?journalCode=tvna

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No abstract fazem duas afirmações importantes: que dados não são petróleo, como comumente são comparados, porque dado não é recurso natural; e como eles dados então precisam ser apropriados eles são melhor entendidos por meio da história do colonialismo (é mais ou menos o raciocínio que venho desenvolvendo desde meio de 2017, acho, naquela fala para o semináriodo Centro Celso Furtado ). Nisso (dados = petróleo) há, então, uma normalização da exploração.

Vários trabalhos apontam a importância dos dados, este artigo afirma a importância de resistir a esses desenvolvimento e fala ” from the south”. “Recicla” a ideia de colonialismo. O que falta na discussão de big data hoje é entender seu processo social em inteireza. O enquadramento é o colonialismo, que aqui não é metáfora ou uma mera continuação, é uma nova forma de colonialismo: colonialismo de dados.

Data colonialism: práticas predatórias extrativas + quantificação da computação. Ver a partir do Sul Global significa entender dependência do capitalismo desse novo tipo de apropriação, que funciona em pontos de conexão de rede. Colonialismo levou ao capitalismo industrial, mas ainda é cedo pra dizer o que vai emergir do atual. Ponto agora não é especular, é resistir (por mais que essas afirmações façam sentido, elas me parecem exageradas em escopo se não consubstanciadas com dados)

Vida social se torna recurso extrativo, autores cunham termo “data relations”. Fluxo global de dados é do tamanho da apropriação do colonialismo. Dois polos coloniais, EUA e China (isso é interessante, ainda que ” europeu”, jogou China fora do Sul Global). Colonialismo de dados funciona externamente (escala global) e internamente (explora suas próprias populações). Divisões Norte-sul e leste-oeste não importam da mesma maneira (isso também parece prematuro, a ver o que os autores “provam”)

Autores se aproximam e se distanciam de críticas correntes ao Big Data. Aí citam Lazzarato, Terranova, Fuchs etc). ” Mas nosso argumento não está preocupado especificamente com a exploração do labor”. Nem dizem que a vida é gerenciada hoje como se fosse labor (cita crítico a isso).

Dizem que preferem argumentos de que o que está acontecendo é apropriação (um dos que afirmam isso seria o Harvey) ou extração de recursos. Mas não é recurso natural: é vida configurada como recurso; dados do indivíduo precisa ser relacionado com dados de outros indivíduos em momento outro. Isso tem sido explicado por autores, mas faltariam detalhes de um enquadramento em que a apropriação via plataformas de dados é só uma parte. Sugerem enquadramento do colonialismo de dados.

Culpa vagueza dos autonomistas por o conhecimento não ter chegado sobre a escala dessa mudança. Só foram não vagos ao dizer que estruturas do trabalho se expandem para a vida (cita uma passagem boa do negri do ” politics of subversion”). Mas isso não daria grip no colonialismo de dados, que ” se apropria da vida como material cru, sendo essa ou não labor ou labor-like”. (me parece é que eles é que estão sendo vagos sobre o que não é vida labor-like)

Lugar de resistência que confronta novas e distintas apropriações do capitalismo do século XXI. Escala temporal tem que ser a do colonialismo+capitalismo, e não da Europa social-democrata. Assim como capitalismo industrial precisou se apropriar de recursos naturais e corpos para acontecer, estamos vendo o primeiro estágio de um duplo desenvolvimento de longo prazo: ” a apropriação colonial da vida em geral e sua anexação ao capital por vários mecanismos, um deles são as plataformas digitais”. Eles argumentam que a plataforma produz o social para o capital, um social pronto para virar dado/valor (essa ideia é boa) quando combinado com outros dados igualmente apropriados. Não seria expansão do processo de labor, melhor é uma analogia com a natureza física da produção capitalista. (ainda tô lutando com essa compreensão, parece que eles não veem labor na produção física)

Vão articular a o que é preciso resistir. Na primeira seção vão explicar o mecanismo do colonialismo de dados e na segunda vão dizer das consequências, revelando uma despossessão mais profunda do que a crítica da exploração do labor. Na conclusão vão falar de resistência pela chave decolonial.

Mecanismos

Muita gente morreu no colonialismo, recursos foram exauridos. Mas falar em colonialismo aqui não é para fazer analogias soltas, é para explorar paralelos com a * função* histórica do colonialismo no desenvolvimento de economias de escala global, a normalização da apropriação de recursos e a redefinição de relações sociais em que a despossessão é naturalizada (isso me parece menos intenso, embora mais profundo no sentido de básico, ao contrário do que os autores dizem)

Naturalização da captura de dados

Afirmam dado pessoal como ” dado de presente ou potencial relevância para pessoas, coletado delas ou de outras pessoas ou coisas” (que definição ruim!). Pra ser expropriado primeiro precisa ser tratado como recurso natural que está lá. ” Fluxo da vida cotidiana precisa ser reconfigurado e representado de forma que permite a captura como dado” (isso é bom, são as plataformas criando estruturas confessionais do cotidiano e do privado). Não existe ” raw data”, ele não é pré-condição de que as empresas se aproveitam, essa disponibilidade tem que ser construída em processos de marketização. A ideia de que nas colônias antes havia um nada, um ” no man’s land” disponível, tem paralelo.

É ideológico, e um exemplo é a ideia de dado como novo petróleo. Davos abraçou essa ideia.

Borramento. Dado seria meramente um exhaust (um sistema de escapamento, termo que está presente na zuboff, essa racionalização aqui é útil para criticá-la)

Racionalização que trata o trabalho que cria isso que sai desse escapamento como “sem valor”. Outra racionalização é de que as corp seriam as únicas poderosas e capazes de processar e se apropriar desses dados. Ao mesmo tempo a sociedade seria o ” beneficiário natural” desses processamentos, assim como a colonização se colocou como um processo civilizacional. (outro bom argumento, que faz sentido. dá pra dizer que as corp se apropriaram da ideia de que a internet seria indubitavelmente positiva. tem uma relação clara com o evolucionismo cultural aí, algo que atravessa nossa submissão ao vale do silício)

Chama os atores do colonialismo de dados como ” setor de quantificação social”. Os grandes de sempre do ocidente, GAFAM, e na China alibaba, baidu e tencent. Inclui produtores de hardware e soft pequenos e grandes, plataformas de social midia e data brokers, esses os mais desregulados.

Investe na comparação com colonizadores do passado. Cita Requerimiento, como a Zuboff, e os Termos de Serviço, mas sem citá-la pq é anterior em publicação. Mas antes era força bruta, agora é concentração econômica.

Modos de Extração

Mais comparação com o colonialismo histórico. Reorganização da vida humana não aconteceria sem mudança nas relações sociais.

” Plataformas digitais são os meios tecnológicos que produzem um novo tipo de ‘social’ para o capital, um social numa forma que pode ser continuamente seguida, capturada, ordenada e contabilizada em valor como dado”. O que é apropriado é construído para ser apropriado, dada a construção de canalizadores de pensamento e ação que foram criados (essa expressão canalizadores não é deles). Aí não há limites, porque o que foi construído o foi para estar pronto para apropriação.

Mas isso é só uma forma de colonialismo de dados. A segunda é o crescimento de ” data driven logistics” em todas as áreas da produção. Logística é tratar toda produção, humana e não humana, como gerenciamento de dado. (me pareceu questionável isso aqui, incompleto)

A terceira maneira é o quanto os indivíduos se monitoram para extração de dados. às vezes porque querem, ‘as vezes pq são obrigados (seguros). Isso é fonte de discriminação e desigualdade.

Tudo junto, essas transformações representam apropriação do capital da totalidade da vida social, apropriação que constitui o momento colonial do capitalismo contemporâneo. Insiste que muitas dessas relações sociais não são labor no sentido estrito (ok, mas ninguém insiste no sentido estrito). É a vida humana (ok, então nada existe de vida fora o que é capitalizado? me parece complicado)

Dá pra entender tudo isso usando Marx, segundo os autores, mas não um uso ortodoxo. Começa pela critica descolonial de que o Marx negligenciou a escravidão e o colonialismo. Se distanciam de Fuchs e Mosco com argumento alternativo que ” captura uma melhor escala de apropriação e implicações”

Marx colocaria que o domínio das commodities se expande sob o capitalismo, ou seja, não é preciso se restringir às commodities que ele analisou. O que antes era apenas atividade humana vira labor power comodificada no capitalismo. O que levaria à comodificação é que o que é jogado no ciclo produtivo é passível de abstração (valoração, transformação em coisa mensurável por dinheiro). Com isso os autores argumentam que a característica fundamental do capitalismo é a abstração. E aí estaria a divergência com os autonomistas, pois não seria necessário demonstrar que o labor e o quase-labor é sujeito a exploração, o que importa é a abstração. (parece q o q os autores querem é se distanciar dos autonomistas, pq essa explicação aqui é meio primária)

Aí o pulo do gato é dizer que data é abstração de processos da vida humana. (de novo, acho meio magro isso). A abstração não é automática, mas se dá em relações sociais. E dado está sendo comodificado. Pro Marx, capitalismo mudou mundo por abstrair labor. Hoje o colonialismo de dados muda o mundo abstraindo a vida social. O mecanismo disso não seriam relações de labor, mas relações sociais comodificadas.

“Interação social ordinária veio a contribuir com mais-valia como um fator de produção, como o esterco”. Mas o que os humanos fazem quando são rastreados não é um novo tipo de labor, embora seja objeto de comodificação. (fico me perguntando a que serve esse tipo de picuinha/discussão, se há comodificação, como os próprios autores dizem. me parece que tratam do labor assim como a ciência positivista trata da natureza). Para os autores então é mais do que labor, pq é a inteireza da vida humana (outro ponto que me parece contraditório, já que se constroem canais que conseguem capturar certos aspectos. a não ser que se pense que a vida se resume ao capturado). Mas isso não tem a aparência de extrativo. Gerenciamento de tudo pela extração de dados de corpos, coisas e sistemas. Se tiver sucesso não haverá um fora da produção capitalista.

Sujeitos da colonização de dados

Nessa seção vai discutir aspectos chave da colonização, seja no capitalismo de mercado (américa do norte, europa) e o estado+mercado da China. (pra variar, nós do sul viramos um grande nada a se falar)

data relations como base de criação de valor econômico. Esse valor depende de sua compreensividade (quão amplo é)

Várias formas de encorajamento e nudging para o auto-tracking, isso em plataformas gameficadas.

Importante não é o indivíduo, que pode ter múltiplas unidades. Cita ideia de data double. Eles são os tijolinhos.

Mas isso não é menos pior, pois quem sofre os efeitos (preconceito, discriminações, outros preços) são os sujeitos reais.

Humanos são só uma parte disso. Interações máquina-máquina também geram dados sociais (outra discussão mal feita, porque é discutível se há criação de valor sem o elemento humano em alguma parte)

O self colonizado

Aqui eles sinceramente começam a se repetir e a fazer um discurso dramático meio piegas de que o self não é o self mais, sem evoluir esse debate, só jogando um Agambem.

Fala que, mesmo que todos estamos sujeitos a virarmos self colonizados, uns sentem mais do que outros os efeitos negativos: pode ter a ver com a intensidade da vigilância, ou a dificuldade de superá-la, mas não vão entrar nessa discussão aqui.

Aponta uma contradição, pq o capitalismo precisa do self para vender mas ao mesmo tempo esvazia o self como o conhecemos, seu elemento conteudista. “o que precisa de defesa não é o auto-governo individualista do self, mas em vez disso a mínima integridade socialmente baseada sem a qual não reconhecemos a nós e aos outros como seres”

Esse self é essencialmente noções ocidentais liberais de liberdade. mas a minima integridade vai além das dominâncias dos modos de poder ocidentais. Cita um filósofo argentino-mexicano, dussel (pra não parecer muito colonizador), sobre o fato de cada indivíduo é distinto, não apenas diferente (de novo, superficial)

Conclusão

Citam o Aníbal Quijano, dizendo que ele concordaria com a luta contra o colonialismo de dados. O que o decolonial nos ensinaria é que só se combate o colonialismo atacando sua racionalidade.

Cita mais Quijano para afirmar que o colonialismo de dados busca uma totalidade (aqui citam que para além do eixo EUA-China) e que a resposta para isso é o reconhecimento da heterogeneidade de toda a realidade. (é a busca de diversidade como resposta, que pode fazer sentido porque enfrentaria a ” falsa” diversidade que ainda mesmo se baseia na datificação. Mas isso não é formulado dessa forma no texto, e fica dúbio, pois seria o caso só de se colocar limites para a datificação e não enfrentá-la como um todo?)

A base da rejeição seria então a rejeição de que a coleta de dados de seres humanos é natural ou racional e a rejeição de que o resultado do processamento de dados é uma forma natural de conhecimento social. Mas os autores não rejeitam a coleta de dados em todas as suas formas. ” Significa rejeitar o modo de apropriação de recursos e o ordenamento social que a acompanha que a maioria das práticas de dados contemporânea representa”. E nomear isso como colonização ajudaria, pq assim o é. (que baita samba para rejeitar simplesmente o capitalismo! pq a aceitação de alguns tipos de coleta e uso de dados significa que os autores não veem no modo cibernético de entender a vida um problema.

(estou realmente puto com esse texto que, embora tenha as suas sacadas, simplesmente se apropria de toda a discussão de colonialismo para ANULAR discussões sobre jogos de poder entre sul e norte. simplesmente transforma tudo em ” colonialismo” só pra evitar falar em labor e em busca de uma metáfora espertinha e de longa duração história. ironicamente é puro colonialismo e apropriação)

Algumas anotações/comentários/decupagem de “Trends in voter surveillance in western societies”, do Colin Bennett (link para o artigo –> https://ojs.library.queensu.ca/index.php/surveillance-and-society/article/view/voter_surv)

Sem revisão nenhuma. Entre parênteses em geral estão comentários meus.

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Texto trata de várias práticas de vigilância de eleitores em estados democráticos (a se julgar pelo título, há algum tipo de equivalência excludente entre sociedades ocidentais e democracias?)

Começa com uma definição de vigilância de autores tradicionais (Lyon, Haggerty e Ericson e o próprio Bennett) apontando seu caráter cotidiano, lateral, nem ruim nem bom, afetando humanos, não-humanos e espaços, e o fato de ser um modo de poder e de governança em sociedades modernas e pós modernas.

Definições macro só nos levam até certo pnto. Os efeitos da vigilância dependem das posições particulares dos vigiados,. Teorias macro tendem a ignorar relações mais sutis. Diferentes tecnologias de vigilância (testes de DNA e satélites espiões, por exemplo) dificultam generalizações sobre suas dinâmicas e implicações.

Essa discussão é para chegar à categoria que ele quer trabalhar, voter surveillance (com especificidades como a da employee surveillance). “… dados pessoais são cada vez mais capturados e processados para o propósito de regular uma justa e eficiente condução das eleições e também para influenciar nosso comportamento e decisões”.

Voter surveillance é um campo pouco explorado academicamente. Há muito comentário jornalístico sobre micro-targeting nos EUA (cita aqui issenberg 2012, pode valer checar) e como isso foi importando para o Canadá. Cita mais trabalhos de outros campos mas diz que pouco disso está voltado a entender perfilização e mineração de eleitores e riscos à privacidade e democracia.

trends in voter surveillance, seção

Generalizações são difíceis. Práticas de vigilância são dinâmicas e consideravelmente secretas. Muitas das inovações são dos EUA mas é importante não generalizar o universal a partir de lá. Diferenças são pelo tipo de financiamento, sistema de dois partidos, polarização competitiva, mercados comercial grande de dados pessoais e ausência de lei de privacidade (esses itens podem ser importantes como pontos de comparação com o Brasil, eu diria).

Voter surveillance é um termo não exato. Dados muitas vezes vem do corpo social geral. E a análise dos dados de votantes é somada a dados de consumidores (isso explicaria o setor varejista sendo quem traz tecnologia ZAP para Bolsonaro?). “Políticos vão às compras por eleitores”. Fronteira entre vigilância de consumidores e de eleitores é difícil de precisar.

Ainda assim, quatro tendências: transição de bases de dados de eleitores separadas para plataformas de gerenciamento de votantes (vai explicar mais); passagem de macro direcionamento para micro direcionamento, inclusive com bancos de dados de data brokers; dados capturados de mídia social; aplicações móveis.

As plataformas integradas de gerenciamento de eleitores. No esquema antigo os partidos tinham listas de eleitores. Os sistemas de agora incluem não-apoiadores/filiados. São hoje essenciais para levantamento de fundos, operaçoes de mobilização (get-out-the-vote), recrutamento e monitoramento de questões em locais chave do ponto de vista demográfico e geográfico.

Nos últimos 20 anos surgiram softwares para isso. Alguns são preferidos pelos de esquerda outros pela direita (cita alguns)

A construção dessas bases é facilitada por dados públicos (mapear que dados são esses no BR seria interessante. Tem o exemplo do Bolsa Família). Como dados não são uniformes empresas complementam com outras bases. Cita empresas dos EUA que fazem isso.

Outros autores sugerem que os partidos coletam dados de diversas fontes, até blogs e cartas para jornais, petições públicas (pergunto se Avaaz não funciona muito pra isso).

Não se sabe se softwares dos EUA foram usado em outros lugares. Cita colaborações entre partidos dos EUA e Canadá e sistemas canadenses.

Cita sistemas semelhantes, com coleta de dados semelhante, do UK e Austrália.

Evidências em outros países é inconsistente. Na Europa muitas dessas práticas são ilegais ou culturalmente não aceitáveis.

Plataformas intergadas disponíveis comercialmente gerencial facebook, twitter, youtube, whatsapp etc, cabos eleitorais e material de campanha. Solução integrada

Cita anúncio de uma dessas plataformas que fala das vantagens e possibilidades.

Ainda assim, ainda tem partidos que mantém o uso das bases centralizadas do passado.

Da mensagem de massa ao micro-direcionamento. Mais dados, mais precisão. Cada vez mais eleições são decididas por swing voters e o eleitorado é fatiado e as mensagens são especificadas de acordo com o veículo-mídia de preferência do tipo de eleitor. (parece ser o caso no Brasil. Usuário de zap tem um perfíl semelhante?)

“Micro-direcionamento usa quaisquer informações de nível individual disponíveis e as combina com dados demográficos, geográicos e de marketing para produzir modelos estatísticos destinados a entender melhor as ideias e os comportamentos dos eleitores”.

Tudo pode ter começado em 2004, com o Bush, quando o contato telefônico começa a ficar difícil pra fazer pesquisas.

Hoje micro-direcionamento é personalização de mensagens. Exemplo é Bush 2004 mirando muheres hispânicas com crianças no Novo México.

Essas técnicas também desafiam ideias de alianças diretas baseadas em classe e renda. Eleitorado complexificado com prioridades múltiplas.

Bases comerciais eram caras e pouco esculpidas para campanhas políticas. Empresas de varejo (elas de novo!) precisam de certos dados pra promover produtos em certas regiões ou pra decidirem onde colocar uma loja. Campanhas políticas precisam de mais dados, a serem agregados com pesquisas. Ou seja, é caro e mais difícil, acessível só às nacionais e campanhas ricas.

É erro pensar que isso mostra a quem direcionar. Micro-direcionamento é ferramenta para priorizar ataques e são probabilísticas. Cada votante recebe um score que indica o quanto pode ser modulado. (é ferramenta de otimização financeira, também)

Reproduz gráfico de score dos conservadores canadenses, do partido.

Mas diz que esse modelo é antigo. E lembra que essas técnicas pressupõe que pessoas parecidas tendem a viver em lugares específicos e a terem fontes de informação e de vivência da realidade semelhantes, o que as aproxima. É uma segmentação que o marketing usa e os partidos se aproveitam modificando (interessante como é geográfica)

Esses dados costumam ser comprados agregados, o que então não alarma sobre privacidade. E as leis nos EUA são bm flexíveis pros data brokers.

Mídias sociais, grafo social e compartilhamento direcionado. Mídias sociais usadas pra recrutamento, direcionamento e busca de doadores. É barato. Whatsapp é particularmente popular na india (cita gupta 2014, checar). Indivíduos ofertam dados a serem analizados, não tem monitoramento invasivo.

Na política se admite que mídia social é um a mais, precisa ser integrada com o resto (como isso foi feito de modo sui generis no Brasil é uma questão, acrescento). Popularidade no online e offline se complementam e retroalimentam. Por isso também inflação com bots (outra hipótese para o Brasil).

Likes e follow não necessariamente são algo. Quem segue? Quais são as tendências? Tem interação?

Conversão do slactivism para ação real é problema não só pra eleição. Tem evidências q ação preguiçosa na rede amansa consciências e prejudica ação offline.

Mídias sociais tendem a ser bolhas em si. Mundo Face, mundo Twitter etc

Fazedores de campanha buscam acesso ao social graph completo de seus eleitores (me parece que pretendem se incubar no eleitor, fazer dele um cavalo de santo). Colin cita softwares para isso usados por republicanos e democratas.

Obama fez uso particular de targeted sharing. A campanha conseguiu criar uma comunidade de 5 milhões que compartilharam visualizações de suas ações entre si: quem compartilhou vídeos, quem deu dinheiro etc. (Isso me lembra da Zuboff no livro novo falando sobre como mídia social é contraste comparativo competitivo, como adolescentes)

Persuasão pela visualização de ações de colegas. Jovens se influenciam mais por isso (o que explica a juventude Bozo também, a influência do humor juvenil do gentili etc)

Descentralização de campanha por aplicações móveis. Aplicações são construídas sobre essas tendências. Provavelmente vão levar a descentralização (a descentralização da campanha Bozo é uma questão a se discutir, como esta operou). Apps mobile usados para: mensagem tradicional, mapeamento porta a porta, gerenciamento de eventos, encorajar doações, engajamento civil amplo.

Maioria dos apps é unidirecional. Usado para manter eleitores atualizados e impulsionar compartilhamentos.

Cita apps usado para planejar ações de militantes nas ruas: sugere rotas. Também monitora eficiência de cabos eleitorais.

Cita app do Obama que continha info de eleitores. E app de doação.

Cita app de gameficação da experiência de campanha (o novo usou isso no Brasil, outros partidos também)

Descentralização dos dados, em mundo de vazamentos, é desastre esperando pra acontecer.

Vigilância de eleitores e comportamento político, seção

Mudanças na tecnologia e marketeiros interessados em empurrar soluções são fatores importantes, mas há outros fatores que também pesam no marketing político e na vigilância de votantes do modo como se configuram recentemente.

Um é o desalinhamento partidário. Desencanto com os partidos (isso tem explicação no contexto Brasil). Tendência geral no Ocidente e desconfiança nas instituições políticas. Começa nos 60, junto com a televisão (esta teve seu papel no Brasil recente) e os novos movimentos sociais (eu diria que com o neoliberalismo)

Uma das implicações é q os partidos tem que buscar novas formas de engajamento. Eleitores viraram clientes cuja fidelidade flutua. Votar influenciado pelo marketing, menos por alianças tradicionais como tradições familiares.

A natureza dos partidos mudou. Cita que antes eram 3 categorias tradicionais. Partidos de elite, partidos de massa, operários, e partidos em torno de um líder carismático.

Surgem os catch-all parties. Centristas e inconsistentes. São típicos do ocidente hoje.

Outra tendência é a busca por partidos mais democráticos, mais abertos. Partidos como instituições quase públicas.

No parlamentarismo as primárias são mais recentes e tem outros efeitos. Cita os socialistas da Itália, que abriram a decisão de cabeça de chapa não só aos filiados, mas a todos que assinassem uma certa de valores socialistas.

Primárias no parlamentarismo ainda trazem questões sobre uso de dados e privacidade

Voter surveillance será do tamanho de acordo com características legais, culturais e estruturais dos países. Subjaz a isso as implicações para uma política democrática.

Conclusão, seção

Assume-se que vigilância e democracia se opõe. O senso comum a tem como negativa, apesar de poréns dos acadêmicos. Ela inspira conformidade, controle e obediência e desencoraja a autonomia, o individualismo e a criatividade que a democracia pede (pede mesmo?).

Vigilância teria natureza anti-democrática, é o que reforça a literatura orweliana e kafkaesca. Os ativistas da privacidade também reforçam isso. Five-eyes são questionados por serem anti-democrático.

Sistemas de gerenciamento de votantes tratam eleitores como consumidores. Consumidores que não pensam. Micro-direcionamento cria nichos e segmentos e torna partidos inconsistentes (isso é MUITO importante, são os pontos cegos)

Sistemas desencorajam engajamento e liberação. Eleitores são mapeados em suas “vontades” e gostos individualizados. Ou seja, crítica da voter surveillance está ao lado da crítica a como o neoliberalismo encolhe a esfera pública.

Mas o argumento é mais complexo. Partidos mobilizam e educam apoiadores para buscar mais engajamento e perticipação. Vigilância dos votantes responde em parte às limitações do uso da tv. As eleições de 2008 e 2012 conseguiriam mais engajamento, é fato. ele fala dos EUA.

Voter surveillance não é necessariamente anti-democrática, ele argumenta. Surgiram novos interesses e antes de regular ou condenar é preciso mais debate.

Duas matrizes de contestação. Uma das democracias liberais, que veem a privacidade como um pré requisito para várias liberdades que permitem a democracia.

Outra é a da participação cidadã. Com os partidos em crise mais acadêmicos tem se alinhado a teses de democracia participativa. Um ambiente mais participativo levaria a mais self-government. (ele não explicita mas me parece que essa matriz questionaria a vigilância porque ela leva a mais “manipulação”)

Haveria uma terceira abordagem mais otimista, em que essas ferramentas aperfeiçoariam a conexão entre políticas públicas e eleitores. Ela ao menos nos faria julgar o processo com critérios diferentes daqueles que usamos para avaliar a vigilância voltada ao lucro e as práticas de segurança do Estado.